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03
Set20

51# - A psicologia não devia ser um luxo

por @dianacarvalhopereira

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Foi também a minha experiência pessoal que me levou a criar o The Pineapple Mind. Apesar de atualmente estar no último ano de Medicina, lutar pela Saúde Mental para todos e mostrar ao mundo que pareço hoje uma pessoa feliz e realizada, nem sempre foi assim.

Em 2017 tive uma depressão tão grave que cheguei a congelar a matricula da faculdade, despedir-me do part-time que tinha e a isolar-me do mundo. Quando hoje olho para aquele ano, sinto que "fiz tudo mal", do ponto de vista daquilo que hoje sei. Sinto que o desequilíbrio associado à patologia me fez perder a estabilidade pessoal, social, académica e familiar que até então achava que tinha. Mas acima de tudo, sinto que isso aconteceu porque demorei a procurar ajuda. Demorei a perceber que o que tinha era mesmo uma doença porque eu própria alimentei o estigma, ao não aceitar que o uma estudante do quarto ano de medicina podia entrar num estado daqueles, quando foi para medicina para "ajudar os outros" e não para ser ajudada.

Demorei e, quando finalmente procurei ajuda, no centro de saúde, aceitei que me prescrevessem só antidepressivos ao invés de o fazerem e também me reencaminharem para um psicólogo, que era o que verdadeiramente precisava, dado ter entrado naquele estado fisiopatológico por uma espiral de acontecimentos adversos com os quais não soube lidar.

Hoje, é difícil para mim compreender como é que aquele médico que me atendeu não teve a sensibilidade para o fazer. Como é que ele confiou que psicofármacos podiam sarar um desequilíbrio neuroquimico que tinha por base uma completa falta de psicoeducação. E acima de tudo, não quero, de todo, amanhã ser essa médica que não vê o doente de uma forma holística nem percebe o poder que a terapia pode ter na vida de uma pessoa (inclusivamente nas que não têm nenhuma doença e apenas precisam de saber lidar melhor com acontecimentos adversos!).

Sei que ele não teve 100% culpa, dado fazer parte de um sistema público de saúde mental que não dá grandes opções de resposta. Sei que, provavelmente, pensou que não valia a pena reencaminhar-me, dado que a lista de espera era gigantesca e que devia "curar" o que tinha em poucos meses com ajuda do inibidor da receptação da serotonina "mágico" que ele me prescreveu.

Tive a sorte de começar a meditar ao mesmo tempo em que me isolei do mundo e de aprender uma série de princípios que se relacionam com alguns da psicologia, aprendendo a relativizar sentimentos/emoções e a viver o presente. Tive a sorte de, apesar de estar completamente sem prazer a fazer o que antes me deixava feliz, continuar a pesquisar artigos de psicologia e psiquiatria que me levaram a compreender as doenças psiquiátricas e o seu mecanismo de formação de uma forma muito diferente e completa.

Tive a sorte de, pesquisar e pesquisar, em mil e uma páginas sobre saúde mental que já existiam lá fora, histórias de resiliência de pessoas que passaram pelo mesmo e "venceram" a depressão. Tive a sorte de conseguir assimilar todos os conselhos que elas me davam, que acabaram por ser verdadeiramente o meu equivalente mais próximo de um psicólogo.

E quando me refiro a sorte, sei que efetivamente me posso sentir sortuda por isso, por todos os que, não tendo a mesma sorte, "curam" uma patologia psiquiátrica com medicamentos mas voltam a desenvolver a mesma ou outra pouco tempo depois, graças à falta dessa componente tão importante e essencial que é a psicoeducação.

Porque hoje sei que voltei a passar por diversos períodos que apelido de "microdesregulações da serotonina, dopamina e adrenalina" (os neuroquímicos mais envolvidos na depressão) mas que consigo identificar e afastar tão depressa como aparecem, com tudo o que fui aprendendo ao longo do tempo. Sei, por exemplo, que não me posso isolar, não me posso afastar de quem me quer bem, não posso deixar de fazer as coisas que contribuiem para o meu equilíbrio, como o yoga, a meditação, aproveitar bem o meu tempo com os amigos e família, ouvir música, fazer exercício físico, a escrita (que tantas e tantas vezes é terapêutica), a alimentação cuidada, a leitura e, enfim, algumas outras coisas que amo e me fazem bem, inclusive defender a Saúde Mental para todos neste projeto e a erradicação do estigma.

Acredito que toda a gente que desenvolve uma depressão ou outra patologia do foro mental precisa de terapia. Ambiciono que ela seja universal e tão acessível quanto um médico de família. Sei que as doenças psiquiátricas existem, estão cientificamente validadas e não são "fraqueza momentânea ou falta de vontade".

Mas acima de tudo, acredito que no futuro vou ser uma médica muito melhor e mais completa, também por ter a história que tenho e isso me fazer ser incapaz de receber um doente no consultório que está dez minutos a chorar continuamente enquanto conta o que o traz lá sem ter a sensibilidade de o reencaminhar devidamente para quem o pode ajudar mais a lidar com esse descontrolo emocional.

E mais, continuo a lutar para que isso deixe de ser uma realidade, através deste projeto. Não só com a petição, que visa reduzir o sofrimento a tantos e tantos que passam pelo que eu passei como pelo trabalho que desenvolvo há quase um ano e meio, a sensibilizar para a Saúde Mental, a propagar conhecimento e sobretudo a trazer a informação que só havia "lá fora" e que hoje felizmente é uma realidade cá também.

O estigma combate-se, sim, com educação. O estigma combate-se dando conhecimento às pessoas que continuam a perpetuá-lo. Porque acredito convictamente que conhecimento é poder. E esse poder faz de nós pessoas mais cultas, empáticas, conscientes e capazes de aceitar o outro. O outro que sofre, o outro que não está bem, o outro que pede ajuda e o que tem muita dificuldade a pedir, o outro que chora, o outro que sente dor, o outro que tem vontade de morrer, o outro que é marginalizado pela sociedade pela sua doença que ninguém "vê". Porque a mente, também dói.

Em 2017, a minha doeu.

Em 2018, depois de sentir que "venci" a depressão, tatuei um ananás (um dos frutos mais ricos em triptofano, um percursor da serotonina) para me lembrar, olhando para ele todos os dias, tudo o que aprendi com a minha doença e não deixar que ela leve a melhor novamente.

Em 2019, decidi partilhar esta minha "mente de ananás" com o mundo, com vista a sensibilizar para a Saúde Mental e a fazer a minha parte para erradicar o estigma.

Em 2020, cá estamos, juntos e ainda mais fortes depois de uma pandemia em que finalmente o tópico da Saúde Mental esteve nas bocas do mundo, inclusivamente dos nossos governantes.

E é por tudo isso que tenho tanto orgulho no The Pineapple Mind, na equipa que juntei ao projeto para formar a Associação e em tudo o que estamos a construir. É por saber do impacto que podemos ter no nosso país e nas pessoas que se encontram perdidas e sentem que ninguém as compreende.

E por isso, por último, para quem nos procura:
Não tenhas medo de pedir ajuda.
Não prolongues o sofrimento com esse medo.
Não deixes que o desequilíbrio neuroquimico vença e que a perpetuação de padrões neurocognivos errados te continue a dominar negativamente a vida.
Eu estou aqui.
Nós estamos aqui.
Fala connosco.

#apsicologianãodeviaserumluxo
#asaudementalimporta

 

 


3 comentários

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Maria Araújo 09.09.2020

Muitos parabéns pelo seu texto, pelo seu testemunho e coragem.
Desejo que tudo na sua vida e profissão seja o que idealiza, porque quem percebe o que tem e luta por si e pelo bem dos outros, merece reconhecimento e gratidão.
Felicidades.
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a tótó 09.09.2020

Obrigada pelo testemunho e pela iniciativa. Estas coisas da mente são muitas vezes " descartadas" e muitas vezes leva-se muito tempo a pedir ajuda. Boa continuação
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EU SOU EU SOU 09.09.2020

Fantástico testemunho! Há que retirar o estigma, pois esse estigma está na base de muita fuga à obtenção de ajuda, e isso,pode ter resultados dramáticos.
O corpo e a mente estão interligados.
Tão simples quanto isto!
Enquanto a ciência insistir na separação de ambos, todos saímos a perder!

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