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09
Out20

53# - Dizer adeus ao burnout

por @dianacarvalhopereira

Estava a fazer uma apresentação sobre burnout quando se deu o clique. Será que também eu estou a entrar neste processo enquanto finalista de Medicina e Presidente de uma Associação que cresce exponencialmente a cada dia que passa?

E o quê que isso diz sobre mim? Estarei menos apta a falar sobre saúde mental se não cuidar da minha como devia? Claro! Lancei há menos de um mês o meu EBOOK sobre práticas promotoras da saúde mental e há dois que o capítulo do sono tem sido o mais menosprezado na minha vida. Tenho plena noção disso e de como resolver a situação mas a dada altura parece que tenho que estar em todo o lado ao mesmo tempo e tenho uma equipa que ainda depende muito de mim para muita coisa. Será que isso é sinal que sou uma má líder? Não, é sinal que estou a ser. E se estou a ser, há espaço para melhorar e para, futuramente, ser verdadeiramente uma líder, que orienta para o sucesso sem ser sempre necessária.

Faculdade. Estágio de cirurgia, tese, estudar para o exame de especialidade, respirar. Atividades da associação, projetos da associação. Voluntariado. Cursos e workshops. Planos. Planeamentos. Blogue. Podcast. Respirar. Eventos, parcerias, colaborações. Respirar. Vida pessoal. Família, amigos, amor. Exercício, alimentação, sono. Prioridade?

Toda a gente se questiona como é que tenho tempo para tudo. Eu respondo sempre que é com uma boa gestão. Mas a verdade é que estou há dois meses sem tirar um único dia inteiro dedicado a mim ou ao dolce far niente. 

Estarei obcecada com o trabalho? Estarei a tirar um tempo demasiado reduzido para mim? Talvez. E foi na dúvida que decidi procurar ajuda, antes que tudo desabasse. Ter tanta noção das coisas e falar tanto sobre saúde mental faz com que esteja continuamente atenta à dos que me rodeiam e, a minha, não é excepção. Ainda assim, sou naturalmente uma pessoa que não se queixa, que desvaloriza, que tenta não dar demasiada importância a pequenos sintomas ou dores, físicas ou psicológicas.

 

E foi assim que comecei a aceitar vómitos depois de refeições sem razão aparente, cólicas, insónias com preocupações da associação e noites em branco para acabar trabalhos. E foi assim que passei a aceitar ataques de choro ou a deixar de ter paciência para falhas, minhas e dos demais, tão normais como necessárias. 

É assim que me tem custado acordar para ir para o estágio, no qual sou orientada por uma médica que é bastante diferente de mim no que toca a valores e visão dos doentes e me tira a serenidade até quando não está lá. Que me humilha, que me condena e que me deixa num stress constante.

E é assim que não tenho conseguido tirar uma hora do meu dia para meditar e que tenho lutado para ter 15 minutos para ler sem adormecer. É assim que não tenho fome e esqueço-me de comer. Foi também assim que perdi 8kg em 3 meses. 

É assim que me esqueço de coisas e que me condeno por isso.

Não me interpretem mal, eu tenho a vida que quero e escolhi. Mas colocar constantemente os outros como prioridade tem sido esgotante e só funciona a curto prazo. A longo, se não olharmos por nós primeiro, não estamos aptos para ajudar alguém e é essa a missiva que orienta os projetos que coordeno.

Assim sendo, esta semana não tive medo de avisar a minha equipa que vou tirar uma semana de férias para ter tempo de me deitar no sofá um dia inteiro sem culpas ou ir ao ginásio mais do que uma vez por semana. 

E nessa semana, vou planear de um modo inteligente a minha vida para não voltar a cair no mesmo ciclo de trabalho e tentativa de produtividade louca sem perceber que, acima de tudo, sou humana.

Hoje uma enfermeira super querida que trabalha no bloco periférico da cirurgia no hospital disse que não foi com a minha cara porque cheguei cheia de pressa, disse bom dia mas não tive o cuidado de dizer quem é que eu era e o que ia lá fazer. E caiu-me a ficha e percebi que efetivamente, estou cansada e não ando com a atitude certa comigo e com os outros. 

Ter esta noção e procurar ajuda não é caso para vergonha. Ter esta noção e procurar ajuda é até necessário, se ainda para mais, dou a cara por uma Associação que tem como missão última erradicar o estigma. O estigma existe quando não se aceita que a saúde mental seja tão importante como a física ou quando se questionam patologias relacionadas com ela. Mas acima de tudo, o estigma existe quando temos medo de procurar ajuda com medo que nos achem maluquinhos. 

Eu não sou maluquinha nem descompensada nem acredito em maluquinhos ou descompensados. Acredito sim em patologias, mas acima de tudo vejo a pessoa e não a doença.

Eu tenho plena noção do que sinto, como me sinto e como posso melhorar. Mas acima de tudo valorizo o trabalho de quem passou anos a estudar para nos ajudar a lidar melhor com as adversidades da vida e a adaptar-nos melhor a diferentes e/ou novas circunstâncias e condicionantes.

Eu vou dizer adeus ao burnout sem ter sequer dito olá. Mas vi-o a chegar e decidi dizer-lhe que me tendo apercebido da tentativa dele me dominar, prefiro procurar ajuda e admitir o problema antes de lhe conceder o poder que ele não pode ter na minha vida (nem eu deixo!).

Adeus burnout!



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