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27
Jul20

50# - o dia em que decidi acabar com as politiquices

por @dianacarvalhopereira

Lunáticos,

 

Desde que me lembro que estou ligada a politiquices. Ainda na Escola Básica, fundei a Associação de Estudantes da Escola Básica de Canidelo em 2010 e fui a primeira presidente eleita da mesma, com 14 aninhos. No caminho fui ao Parlamento dos Jovens e ao Euroescolas. No 11° ano fiz parte do Conselho Geral, já no Liceu de Gaia. No ano seguinte fui da Direção da Associação de Estudantes como Vice-Presidente da mesma e integrei o Conselho Municipal da Juventude de Vila Nova de Gaia em representação, sendo que depois fui eleita Presidente da Comissão Permanente. Nesse mesmo ano voltei a ir ao Parlamento dos Jovens e fui Porta-Voz do distrito do Porto. Se isto pareceu um curriculum? Talvez mas vou tentar simplificar e explicar o que pretendo. Toda esta experiência associativa levou-me a conhecer algumas pessoas ligadas à política.

 

A minha experiencia numa "jota":

Ainda em 2013, auxiliei como voluntária na primeira campanha para as eleições autárquicas de Vila Nova de Gaia do Eduardo Vitor Rodrigues, porque simpatizava com ele e com a sua visão. Nessa altura, comecei a ir também a algumas reuniões da Juventude Socialista de Gaia, que coordenava os voluntários da campanha. E depois disso, fui ficando e reunindo mais vezes, muito embora não tivesse ideologia partidária definida. E esse ir ficando não me trouxe grande coisa, em boa verdade.

As juventudes partidárias, da minha experiência (e atenção que pode não refletir a generalidade das situações) não acrescentam muito. Se desde 2013, fiz parte da organização de quatro ou cinco atividades em condições, penso que foram muitas (e culpa minha também, mas já lá irei). A juventude, essencialmente, auxilia o partido em atividades do mesmo, principalmente em campanhas (seja autárquicas, legislativas, europeias, presidenciais...) ou atividades a nível distrital/nacional. Por não terem fundos próprios, é complicado organizar atividades autonomamente e reconheço que essa era uma das principais lacunas, mas não só. 

Devo também referir que o facto de eu ter ido estudar medicina para Coimbra em 2014 não ajudou a que tivesse a melhor assiduidade em reuniões, uma vez que estava lá durante a semana e por muito que pedisse que se organizassem ao fim de semana, quando estava em Gaia, nem sempre era possível, de maneira que também só estava "a meio gás". Mesmo assim, inicialmente ainda insisti que me fossem enviadas atas ou resumos de reuniões, sendo que me venceram pelo cansaço de nunca me enviarem nada e parei de tentar. Senti que era tudo pouco coeso e desorganizado. Assim sendo, não foi difícil afastar-me da estrutura sempre que não estávamos em campanhas, que no fundo, eram as alturas em que nos sentiamos úteis e necessários. E ajudei numas quantas. Depois das autárquicas de 2013, auxiliei nas europeias de 2014, onde acima de tudo abanei bandeiras em eventos, vesti t-shirts, dei brindes e fiz de corpo presente, sorrindo e acenando atrás de políticos importantes que falavam em comicíos e que gostavam de ter jovens atrás, a mostrar uma aposta na juventude (e se repararam bem, no ano passado não foi diferente). Ajudei nas legislativas de 2015. Nas presidenciais de 2016 não dei grande contributo porque simpatizava mais com o Marcelo, que tal como o Eduardo, é professor. Mas voltei a ajudar nas autárquicas do Eduardo de 2017, sendo que aí, ganhei uma posição de destaque sem perceber muito bem como.

 

A minha experiencia nos orgãos de poder local:

Passando a explicar, antes das listas dos partidos para as eleições serem entregues, há todo um desenrolar de apresentações pelas freguesias e foi-nos pedido, mais uma vez, dentro da estrutura da Jota, que estivéssemos presentes nessas mesmas apresentações de candidatura. Eu apareci numas quantas e entretanto foi-me dito que provavelmente seria convidada para fazer parte da lista da Assembleia de Freguesia de Canidelo. Achei estranho, tendo em conta a questão do meio gás e de ter a todo o instante uma perna e meia em Coimbra e apenas "meia" no Porto, aos fins de semana. Mesmo assim, percebi que quisessem juntar jovens a uma equipa já envelhecida. No entretanto, qual não é o meu espanto, fui adicionada também às listas para a Assembleia Municipal, ainda que num lugar que aparentemente não seria elegível. Senti-me meia confusa porque não fiz nada que fosse assim tão meritório para tal. Senti-me acima de tudo estranha porque percebi que fui escolhida apenas por ser jovem e mulher. Mas como não era num lugar elegível, pensei para mim "tudo bem". Mas a verdade é que ganhamos as eleições com maioria, fui eleita representante da Assembleia de Freguesia e foram eleitos vinte deputados do grupo do PS para a municipal, sendo que eu era a vigésima primeira e, assim sendo, a primeira a entrar se alguém renunciasse ou suspendesse mandato. E assim foi, logo no primeiro ano. Quando me disseram que seria deputada permanente da Assembleia Municipal, fiquei confusa. Não só porque apesar de ter vivido grande parte da minha vida em Gaia, no momento não era nesta cidade onde passava a maioria do meu tempo, como também porque estava numa fase complicada em termos pessoais (enfrentei uma depressão em 2017, precisamente na altura em que fomos eleitos). Foi tudo estranho na minha cabeça e ainda mais incoerente o pouco apoio que me deram ou o pouco tempo que dispenderam a explicar-me como a Assembleia funcionava e quais eram as minhas obrigações ou funções. O resultado foi que na minha primeira e única intervenção numa Assembleia, fui chamada à atenção porque tal não se faz: "não se fala sem preparação e sem o conhecimento de todos". Mais, durante estes 3 anos fiz 2 moções que não me deixaram apresentar e inclusivamente não me deram feedback do que mudar/o que estava mal que não justificasse a apresentação. Simplesmente ignoraram os meus pedidos de tentar ser útil no seio de um órgão onde ganhava 80€ por Assembleia mas onde queriam que fizesse  apenas de corpo presente, sorrisse e acenasse, não intervisse e não pudesse ter liberdade de voto (também cheguei a ser chamada a atenção porque me abstive numa votação em que o grupo municipal do PS tinha votado a favor, votação essa que envolveu uma moção que já tinha votado nos mesmos termos na freguesia com voto contrário ao decidido pelo grupo na municipal, à posteriori. Se não perceberam nada, peço desculpa, talvez tenha explicado tudo de uma forma confusa mas basicamente não nos deixam votar conforme queremos, temos que votar sempre o mesmo que o grupo vota). 

Por tudo isto, a partir do dia 23 deixei de ser deputada municipal em Gaia e de freguesia em Canidelo. Porque depois de quase 3 anos de mandato, desiludi-me completamente com este sistema de poder local e com este completo "fazer de corpo presente". Quanto aceitei fazer parte da lista, foi com o intuito de dar o meu contributo sério e de algum modo, fazer a diferença. Mas tal não aconteceu. Mais: senti, desde o início, que estava bastante limitada nas minhas possibilidades de ação. Mesmo assim, tentei falar, tentei impor-me, tentei escrever moções, tentei ser ativa. E depois de sermões por intervenções e ignorares frequentes quanto às moções que escrevia, fui desanimando, fui perdendo o interesse. Até que me cansei e suspendi o mandato por um semestre, para pensar se depois queria continuar. Quando voltei, nada mudou. Continuei a ser uma espécie de figurante nas Assembleias, sem liberdade de voto, sem poder intervir, sem poder apresentar nada. E cansei-me. Para estar apenas por estar, prefiro não estar, porque tal não se coaduna com a minha personalidade.

Impediram-me de escrever o que penso e que quero enquanto membro do grupo de deputados do PS, pois agora sempre que tiver algo a dizer, vou lá enquanto cidadã nos períodos da intervenção do público.

No entretanto, desvinculei-me também da ligação à jota e estou seriamente decidida a não envolver-me em politiquices num futuro próximo, por tal não contribuir minimamente para a minha felicidade e realização pessoal, sendo que posso continuar a apresentar propostas não só nos orgãos de poder local como também pedindo audiências nas comissões parlamentares (sendo que já fui à do ensino superior, apresentar propostas sobre bolsas de estudo, em 2016 e tenciono ir lá brevemente, apresentar nova proposta!). 

A cidadania ativa, continua a ser uma ambição e preocupação. Mas não preciso de estar inserida em politiquices para isso. Politiquices essas que me roubam tempo, paciência, motivação e esperança nos nossos representantes. 

Apesar de tudo isto, devo ressaltar que conheci bastantes pessoas empenhadas e trabalhadoras, tanto na jota como nas associações e alguns colegas das assembleias. Nem tudo está perdido e sei que há pessoas competentes e capacitadas. Eu é que não lido bem com lobbies e com politicamente corretos. Talvez o problema seja integralmente meu. E não quero de todo, que este desabafo soe pretensioso ou ingrato. Agradeço muito a quem me deu oportunidades e lamento se não fui o que pretendiam que fosse. Mas acima de tudo, tenho que ser fiel a mim mesma porque a minha felicidade e convições têm que estar acima de quaisquer imposições externas. 

Não sonho nem nunca sonhei ter reforma à conta de um tacho de quatro anos numa Assembleia da República e sei que a decisão de me afastar e renúnciar todos os tachinhos que possuia me vai afastar completamente dessa possibilidade. Mas durmo melhor à noite a saber que não ganho 80€ por assembleia para estar sentada e quieta. Durmo melhor à noite a saber que não lucro exageradamente com as contribuições alheias enquanto o nosso SNS colapsa e enquanto luto também no seio da Associação que presido para melhores condições para a saúde mental no serviço público. Saber que não há dinheiro para contratar mais psicólogos nos centros de saúde mas há dinheiro para pagar a mais milhares de deputados "de corpo presente" por este país fora, repugna-me. Pela antiguidade e mesquinhez do sistema, pelo método, pela não reinvenção, pela pouca importância que este Estado dá a algo que me diz tanto e pela qual trabalho todos os dias, há quase um ano e meio. 

Portanto esta é, acima de tudo, a minha rebelia contra o sistema. Abaixo o patriarcado, porque as coisas têm efetivamente de mudar. E não é a fazer parte de algo que considero podre que vou conseguir mudar algo. É a dar o meu contributo, de forma mais inteligente, pro-ativa e acima de tudo, livre e não condicionada. É a usar o meu tempo e esforço de uma forma mais produtiva e eficaz. E é a dizer não aos jovens e às juventudes que vivem a imitar quem lá esteve antes.

Ouvi no podcast "Quinta Essência", da Antena 2, o cientista António Coutinho a defender a criação de uma democracia demonstrativa a partir de uma amostra representativa da população e não constituida por partidos. E porque não? Se o nosso sistema político está tão gasto, não será uma reforma deste tipo o caminho lógico a seguir? 

 

(...)



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