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    Estavamos a 21 de março de 2019. Decidi criar uma página de instagram com a partilha de informações sobre saúde mental. Um bocadinho sem saber no que ia dar, nunca elaborei um plano. Queria simplesmente falar sem tabús sobre um tema que me dizia tanto. Pela minha experiência enquanto estudante de medicina, se existem alguns estudantes do meu curso que pouco sabem (porque estudam para conhecer o básico para o exame da cadeira e não para saber a longo prazo), noutros cursos ou até na população geral, o desconhecimento domina.

    Sempre fui da opinião que é a educação que resolve todas as lacunas das sociedades. Porque elas sustentam-se na desinformação e no preconceito. Se informarmos as pessoas, damos poder. Se as mantermos de palas fechadas, damos poder aos poucos que têm conhecimento e que muitas vezes usam e abusam dele. A premissa era simples. Fazer chegar informação. Falar sobre a minha experiência, que um ano antes ainda me encontrava a superar e a recuperar da depressão que tive em 2017. E não foi uma recuperação rápida e linear. Foram uma série de altos e baixos que acima de tudo me ensinaram a ter auto-compaixão por mim, a criar uma auto-estima sólida e a perceber que o amor é a mais bela forma de demonstrarmos que somos seres superiores, em detrimento de cultivarmos ódios de estimação ou rancor por quem outrora nos fez mal ou contribuiu para certas e determinadas escolhas. Mas acima de tudo, aprendi a perdoar-me e voltei a construir as bases do um ser humano com valores inexoráveis que quero ser.

    A meditação e a ligação a alguns ideais do budismo ajudaram a conseguir atingir essa plenitude e estado emocional resiliente que me permitiu usar o que aprendi para tentar ajudar os outros. Permitiu-me deixar de ter medo de falar sobre o que passei e tantas outras pessoas passam. Permitiu-me ter motivação para lutar por todas essas pessoas que sofrem em silêncio. E acima de tudo, permitiu-me ganhar ainda mais amor pela causa e perceber que alguns de nós nascem com alguma missão no mundo. E a cada dia que passa, fico mais convicta que a minha é esta.

    Independentemente da medicina, da escrita, do direito, do stand up e de todas as minhas outras paixões, ajudar os outros, seja em que área for, vai ser sempre o mote das minhas ações e planos de vida.

     Publiquei, publiquei, publiquei. Perdi a conta das horas passadas com pesquisa e design dos posts (sim, fui sempre eu a tratar disso também!).

     Em janeiro deste ano o projeto cresceu imenso, depois de lançar o movimento pessoas reais e ter imensas pessoas a dar a cara, partilhando comigo e com o projeto as suas histórias relacionadas com problemas de saúde mental ou relacionados. Comecei a fazer diretos, a participar em programas da tv, podcasts, a dar a cara pelo meu trabalho e missão. No entretanto, surgiram projetos paralelos (como a conferência de saúde mental e a respetiva comissão) e, em tempos de isolamento, os The Pineapple Friends, voluntários para a saúde mental que diariamente apoiam emocionalmente e são o ombro amigo de quem nos pede ajuda.

    Dia 21 de março, quando a página fez um ano, lancei um site quase integralmente feito por mim para ter a informação mais organizada e coesa.

    No entretanto, surgiu a motivação de levar isto a patamares superiores. Fiz um crowdfunding no dia 24 de março e disse a mim mesma "se fizer os 300€ para registar o projeto como associação e futuramente como ONG, vou reunir uma equipa competente que me vai ajudar a chegar mais longe". E assim foi. No próprio dia atingimos o patamar final e eu tive que cumprir os designios de quem acredita tanto no projeto como eu. Juntei mais 28 pessoas incríveis. Estamos há 4 semanas a criar algo ainda mais incrível do que achava possível. Fizemos estatutos, fizemos um plano de atividades sólido e que nos vai permitir atuar um pouco por todo o país. Fizemos amizades. Criamos um grupo de peer suport em que todos se ajudam, se respeitam e às suas características individuais. Neste grupo, as diferenças enriquecem-nos e elevam-nos. Neste grupo, eu sinto que tenho mais almas boas que querem dar um pouco de si em prol dos outros. E é super gratificante saber que os tenho à minha volta.

     E hoje fomos registar-nos oficialmente como associação. Já temos nome oficial e NIF! Já somos uma entidade coletiva. Eu não podia estar mais orgulhosa.

 

    Temos trabalhado todos os dias em prol de fazer isto acontecer, de manter os friends ativos e de continuar a atividade nas redes sociais e site. Tenho andado sem vontade de escrever, pela situação atual e pelo contexto de isolamento. No entanto, não podia deixar passar este dia sem fazer esta menção a todas as pessoas que me ajudaram a chegar aqui:

- à minha irmã, que foi a primeira a motivar-me e a dizer "Didi, isso sim é algo com que deves ocupar o teu tempo, a ajudar quem precisa!";

- à Mia, ao Lory, à Daniela e ao Rafa, que foram os meus colaboradores numa segunda fase do projeto e me ajudaram a perceber que o caminho era começar a publicar em português;

- ao Paulo Almeida, ao Rúben Branco (que foram os primeiros famosos a partilhar posts do projeto e continuam a ajudá-lo a crescer), à Joana Gama (que nos deu logo conselhos úteis e sugestões incríveis e que nos tem também acompanhado desde então) e a todos os outros famosos que foram partilhando os nossos posts e a fazer o público deles chegar até nós.

- ao Rui Unas, incansável, que me atirou para os cães em pleno direto quando nem ele sabia do projeto, naquele direto com a querida Tânia Graça (que também ela entrou entretanto para a nossa história, não só em diretos como sendo formadora na nossa futura conferência). Ao Marco, que me fez ir ao estúdio e que acreditou em mim e a toda a restante equipa do maluco beleza naquele direto que nos fez explodir. E ao Rui Unas novamente, por me fazer ir lá uma segunda vez para sentar na poltrona amarela e falar durante mais tempo sobre o projeto.

- ao Louis Monteiro, que me ofereceu a ideia de fazer um site, o modelo do site e mentoria/auxílio para o desenvolver;

- as todos as pessoas que já nos enviaram testemunhos, contribuições ou que confiaram no projeto para pedir ajuda;

- à minha família e amigos, que tantas vezes se sentiram trocados por um projeto, sem perceberem a importância que tinha para mim lançar aquele post à hora x, quando deveria estar com eles e a dar-lhes a atenção devida. A eles, por toda a paciência que têm tido desde que o projeto passou a dominar a maior parte do meu tempo e disponibilidade. E por todas as vezes que partilharam posts depois de os melgar.

- à minha equipa brilhante, que me dá motivação para continuar, me dá confiança para, sem medos, levar isto para a frente com ele e me inspira a ser cada vez melhor. Com um foco especial ao Pedro, à Violeta e ao João por me aturarem quase todos os dias e serem braços direitos incriveis. Mas na verdade, com foco em todos, por serem pessoas excepcionais e que me orgulho de ter juntado.

 

      Espero não me ter esquecido de ninguém. O mais sincero obrigada. 

 



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