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Lunáticos,

Assegurei-vos que este ano ia fazer review de todos os espetáculos de stand-up que visse mas já estou a falhar porque não fiz sobre o solo do Teixeira da Mota. Não gostei particularmente dele e preferi não escrever nada em detrimento de escrever uma crítica meramente construtiva mas que nunca vai chegar até ele (até porque muito provavelmente ele não quer saber da minha opinião, ainda que o sapo e os meus leitores queiram).

Mas adiante, hoje a crítica é ao solo do Bruno Nogueira.

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Quando comprei, sozinha, há uns meses atrás, um bilhete para ver Bruno Nogueira no Altice Arena, ainda sem ter esgotado e sem saber se iria ter companhia para o dia dos namorados, foi por várias razões:

1) não acredito nesse dia comercial e consumista em que vários casais que se odeiam e discutem durante todo o ano, neste decidem aparecer nas redes e gastar dinheiro em flores e chocolates - mas acho que é uma opinião que já foi dita e escrita dezenas de milhares de vezes, por isso até aqui, nada de novo;

2) mesmo que tivesse namorado nesta altura, junto ao primeiro motivo a seguinte opinião: se tens namorado, o dia dos namorados deve ser todos os dias, já que se não é para ser incrível, não vale a pena ter alguém;

3) achei que um evento de stand up na maior sala de espetáculos do país era sem dúvida algo em que queria e devia estar presente, não só como ávida consumidora de comédia mas também como, mais recentemente, produtora e autora de textos humorísticos. E este foi o principal motivo que me levou a gastar dinheiro para sair do Porto, onde ele já tinha estado com este solo, para o ver na capital, na maior sala - pelo ato inédito de o apresentar nela, desafiando-se;

4) o Bruno Nogueira é uma referência para toda a gente que faz e gosta de humor, pela multiplicidade incrível de trabalhos e pela capacidade de se reinventar a cada um. Sou suspeita por ser apaixonadíssima por ele e pela sua capacidade criativa. Mas mesmo que não fosse, valia a pena ir na mesma;

5) ver ainda o Ricardo Araújo Pereira e o Carlos Coutinho Vilhena na mesma noite é sem dúvida, interessante. E não me esqueço dos Clã, brilhantes ou da voz off inicial do Salvador Martinha;

6) muito provavelmente há mais coisas a escrever mas só quero mesmo chegar ao 7;

7) sim, o Bruno é o nosso CR7 da comédia, digam o que disserem, pela sua capacidade de trabalho. Pode continuar a ser visto como a Pepsi por muitos. Mas não sinto que a Coca Cola/Messi/Ricardo Araújo Pereira possa, de alguma forma, diminui-lo. Ambos são incrivelmente bons, apesar de diferentes. E há espaço para todos! (esta dica também é para algumas pessoas da comédia que gostam de quezílias e de medir pilas com os seus pares, sem perceberem que é o que escrevem e interpretam que os faz melhores comediantes!);

 

Bem, quanto ao espetáculo em si, demorei até ter distância emocional para poder escrever sobre ele, porque foi só um dos momentos mais mágicos que vivi em toda a minha vida. Pelo misto de emoções, por ter chegado relativamente cedo e ter visto o Altice Arena a ficar tão cheio que havia inclusivamente pessoas sentadas no chão, na última fila (porque não queriam ficar nos cantos/não encontravam lugares para o grupo todo), pela mística envolvente e pelo silêncio que se fazia sentir naquele espaço enorme sempre que algum dos comediantes falava, em detrimento do momento que era a onda de gargalhada que seguia cada punch line. 

Começou com o Carlos Coutinho Vilhena, o "João Félix" do humor, que foi igual a si próprio e não defraudou as espectativas. Foi pena fazer tão pouco tempo porque ele é realmente um diamante em bruto. Quem apresentou, de seguida, o Bruno, foi Ricardo Araújo Pereira. Outro que, sendo igual a si mesmo, não precisa de muito mais. Era visível o nervoso miudinho dele, que nada habituado está a palcos e a ver 14 mil pessoas à frente dele (sendo que na tv fala para milhões mas está sentadinho à frente de uma câmara). Mais uma vez, não há cá escolher entre os dois campeões nacionais. Podem existir simultaneamemte, mover milhares em torno do que fazem e ser maravilhosos na sua diferença e autenticidade.

 

Veio finalmente o Bruno, que emocionou toda a gente a cada história, ao mesmo tempo que nos fazia rir.

Veio o Bruno e, mostrou que a comédia vai muito para além de dizer meia dúzia de one liners escritas por quem não sente o que diz.

Veio o Bruno e trouxe um dos melhores e mais intimistas textos de solo que tive o prazer de ouvir nos últimos tempos.

Veio o Bruno e trouxe exatidão, certeza, mil artimanhas e jogos de palavras. Veio o Bruno e completou o puzzle difícil que é escrever comédia.

Veio o Bruno e, sem medos, voltou a fazer stand up e a provar porquê que é dos profissionais mais respeitados neste país à beira mal plantado.

Veio o Bruno e, trazendo os seus pais a palco para verem com os seus olhos o mesmo que o filho estava a ver, demonstrou uma humildade e um amor pelos mesmos fora de série (completado por partes do solo em que, em jeito de sátira, falava dos seus pais, carregado de amor associado ao efeito cómico).

Veio o Bruno e demonstrou que a comédia também pode ser uma avalanche de emoções.

Veio o Bruno, que é pago e conhecido por fazer tanta gente rir e, neste dia, fez muita gente chorar, de emoção e felicidade.

Veio o Bruno e, sozinho, marcou uma posição na comédia em Portugal: está bem viva, move aficcionados e pode/deve instalar-se, nestes moldes e dimensões, como uma das mais belas formas de arte e entretenimento da atualidade.

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Obrigada Bruno!

 

 



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