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09
Fev20

44# - as nuvens que tapavam o sol

por @dianacarvalhopereira
"Primeira motivação pa' me tornar quem eu quiser ser
Só queria sorrir e nunca mais viver depressin'
Primeira motivação pa' me tornar quem eu quiser ser
Pa' sair da cama mas nunca viver com pressa
Eu só queria sorrir e nunca mais viver depressin' "
 
Ontem decidi que iria escrever este texto dirigido e dedicado a todos aqueles que me pedem ajuda, seja através do meu projeto The Pineapple Mind, seja através das minha conta pessoal.
 
Todos os dias recebo dezenas de mensagens, sendo que a grande maioria expõe situações complicadas. Todos os dias respondo a tantas e tantas utilizando todo o conhecimento que tenho e ainda o que não tenho e se for necessário, vou pesquisar.
 
Há quase um ano, criei o projeto com a ideia que iria apenas sensibilizar para as questões da saúde mental. No entretanto, descobri que sou uma âncora para tantas e tantas pessoas que estão atentas aos textos que escrevo, aos movimentos que lanço, aos vídeos que público. Descobri que posso ter um impacto positivo na vida de tanta gente. Descobri que o que me move e o que me faz feliz é precisamente isso. E por isso mesmo, esta é a motivação que me irá tornar "quem eu quero ser" e uma das motivações que todos os dias me faz sorrir e sair da cama, vivendo sem pressas.
 
 
"Como é que outros se levantam?
E eu não
Pensamentos viram culpa
Não lembram
De encontrar os que me cansam
Só me atrasam
Quem vai me dar a mão, minha motivação
Juro é só mais esta canção, na, na, não
P'ra lembrar que há uma direção p'ra cada um
Esta é 'pós dias de chuva a duvidar
Da minha motivação qual era essa paixão"
 
 
Bons amigos, bons colegas, bons seguidores,
 
Aqui vai o texto propriamente dito (intercalado com partes da música "só queria sorrir" do Slow J):
 
Ontem, enquanto sobrevoava nuvens dentro do avião, reparei como o sol brilhava acima delas e como elas tão casmurramente o tapavam, dado que cheguei a terra e estava um dia cinzento e escuro.
 
Apercebi-me que o tempo cinzento pode ser, no fundo, o modo como vemos o mundo quando estamos doentes. Cheguei à conclusão que as nuvens podem ser a representação de todas as estruturas do nosso sistema nervoso central que, tendo a funcionalidade alterada, só nos fazem ver a vida cinzenta, em detrimento de ver o sol que, independentemente de tudo, continua lá cima a brilhar e nos deve dar esperança. Até porque as nuvens, se fizermos por isso, um dia vão deixar de tapá-lo. 
Esta analogia vai ser extremamente importante para tudo o que de seguida vou escrever. 
 
Um dia, começou a chover.
Nesse dia, acordei com vontade de morrer.
Nesse mesmo dia, em 2017, eu percebi que depois de um prolongado tempo em que deixei que as tais nuvens dominassem a minha vida, eu já não tinha esperança que o sol aparecesse mais. Eu já nem queria nem conseguia ter esperança. E queria parar de ver dias cinzentos, uns atrás dos outros, que parecia que, a cada dia, escureciam mais e que trouxeram a chuva para qual eu não estava abrigada. Nessa altura, eu só pensava na inutilidade da minha vida e da minha presença no seio deste mundo escuro e triste, quando não sentia prazer ou felicidade. Nessa altura, eu só sentia que ninguém me amava e que eu não era indispensável. Nessa altura, eu quis muito deixar de ver dias cinzentos uns atrás dos outros e quis fugir da chuva. Quis acabar com tudo. Perdi a motivação para me tornar fosse o que fosse, para sair da cama, para sair do meu mundo totalmente paralelo, em que só existia uma Diana cheia de defeitos e imprecisões, que não fazia falta a ninguém.
 
Nessa altura de dias cinzentos, todos os dias me sentia mais culpada por tudo. Nessa altura, não tinha esperança no mundo e nas pessoas.
 
Nesses dias de chuva, eu queria morrer e acabar com tudo. Mas quero que entendam, acima de tudo, que tudo aquilo era o efeito das nuvens. Tudo aquilo era uma patologia que me toldava completamente a visão do mundo e me tirava o sol, a personificação da esperança, do foco, da motivação e do bem.
Um dia acordei com vontade de morrer.
 
Mas no seguinte, acordei com vontade de ser mais forte do que as nuvens e de me proteger da chuva. Até porque me conseguia lembrar (ainda que muito mal) da época em que não havia núvens e o céu limpo alegrava a minha vida. Aí, decidi assumir as nuvens. Decidi aceitar que estava doente e que precisava de ajuda. Fui ao médico e disse-lhe em que consistiam as minhas (e atenção que as vossas podem ser bem diferentes!): estava triste, demasiado triste, durante todo o dia, há mais de dois meses. Tinha insónias e durante o dia queria estar na cama mesmo que não dormisse. Não tinha prazer em fazer nada. E quando escrevo nada, refiro-me a tudo o que me fazia feliz anteriormente. Também não gostava de nada do que hoje em dia me faz feliz. Comia exageradamente porque sempre que metia um doce à boca, tinha um pequeno momento de prazer que instantaneamente passava e só me apetecia meter outro. Tinha demasiada fome para alguém que mal se mexia nem gastava as energias de tudo o que comia. Sentia-me, tal como vos referi anteriormente, inútil e culpada por uma série de problemas que tive no passado. Não gostava de mim nem da pessoa em que as as núvens me queriam fazer acreditar que me havia tornado. Não me conseguia concentrar nem manter o foco. Passava as horas a ruminar pensamentos e emoções negativas, num efeito bola de neve cada vez maior. Sentia que a minha capacidade cognitiva entrara em declínio e eu já não era a mesma Diana inteligente e perspicaz. Sentia-me burra. Senti que perdera aquilo que considerava a minha melhor qualidade, o intelecto. Senti que já não podia ser sequer médica porque não tinha capacidade para tal.
Tinha vontade de morrer. Tinha aliás, tanta vontade que pesquisava a melhor maneira de o fazer sem os outros perceberem que o fiz de propósito, para não lhes causar sofrimento por não perceberem que eu estava tão em baixo e tão angustiada. 
Contei as nuvens, com muita vergonha, ao médico que me atendeu naquele dia. Ele percebeu que elas já eram patológicas e que eu precisava seriamente de ajuda para eliminá-las.
 
Ele receitou-me antidepressivos, que é como quem diz, o suporte químico que remove nuvens mas que não as impede de voltar um dia. E esse facto é bastante importante.
 
Esperei uns tempos enquanto eles faziam efeito. Li muito, comecei a tentar meditar e a esforçar-me por contrariar as nuvens. Tentava sair à rua mesmo quando estava a chover. Tentei ver pessoas mesmo quando a escuridão não me deixava vê-las totalmente e me manipulava a visão que tinha delas. Tentei ler e ver vídeos sobre outras núvens, de outras pessoas. Tentei estudar bem as doenças da mente. A dada altura, percebi que era muito mais frequente do que eu achava. A dada altura, deixei de me sentir um ser estranho que vivia uma situação rara. Passei a ver-me como mais uma, no meio de uma multidão de gente que também vive a tentar remover núvens. E nesse momento, parei de culpar-me. Parei de me sentir inútil. Comecei a acreditar novamente em mim e nas minhas capacidades. Quis voltar a desafiar-me, a sair, a trabalhar. Quis voltar a sentir-me útil e a sentir prazer. Quis voltar a ser feliz. Quis ver o sol, para além das nuvens.
 
Quando acabou a prescrição do meu removedor de nuvens, no início de maio do ano seguinte, senti-me capaz de as remover sozinha, com a ajuda de tudo o que fui aprendendo.
 
A meditação foi essencial. Aprendi a viver no presente. Aprendi a ter auto-compaixão por mim. Aprendi a ser grata. Aprendi que os pensamentos e emoções são processos mentais e não podemos deixar que nos controlem, nós é que devemos controlá-los a eles.
 
O exercício também me ajudou muito, na medida em que me fazia soltar endorfinas do bem-estar. Também comecei a alimentar-me melhor e a não fazer dos doces consolações.
 
Li imenso sobre psicologia, sobre psiquiatria, sobre emoções, sobre bons hábitos e sobre felicidade. Li os ensinamentos de buda. Até livros de auto-ajuda eu li.
 
Aprendi a gostar de mim novamente e a ter ações positivas comigo. Aprendi a gostar de fazer o que anteriomente amava. Aprendi em ver muito para além do que as núvens mostravam. Aprendi a sentir-me útil outra vez.
E no entretanto, a cognição voltou e eu voltei a ser orgulhosa dela mas nunca orgulhosa o suficiente para parar de estudar e de querer saber algo novo todos os dias. Voltou a curiosidade, voltou o raciocínio, voltou a criatividade. A cada núvem que eu fazia desaparecer, voltava algo. 
E o que se seguiu foram dois anos em processo. Dois anos de altos em baixos mas acima de tudo, dois anos em que aprendi a lidar com toda e qualquer nuvem que apareça sozinha.
 
Os anti-depressivos foram a personificação do removedor de nuvens. Mas nunca serão o que as impedirá de voltar. Esse trabalho, somos nós que temos que o fazer todos os dias, tendo ações positivas e deixando que as emoções e sentimentos igualmente positivos dominem, na nossa vida. Temos que arrumar em gavetas todas as núvens que eventualmente apareçam na hora. Temos que impedir que o céu volte a ficar novamente tão carregado e que a chuva nos molhe e tolde a razão.
 
E muitas vezes, é esta parte essencial que falha na maioria das pessoas e faz com que desenvolvam novamente uma depressão ou outra patologia psiquiátrica. Faz com que deixe que as nuvens voltem a dominar quando não estão sob o efeito de fármacos.
 
"Só vim dizer que eu tive aqui (Ye)
E que eu tentei ultrapassar o que eu vivi p'ra não ficar assim (Ye)
Não aceitar a história acaba só no fim
E sou eu quem escolhe o fim (Hey, hey, hey, hey, hey)
E como aplausos não curam o coração
Vou ter primeiro sempre que 'tar dentro
Porque eu unicamente vou saber no fim se eu venci ou não"
 
Hoje em dia, sinto-me feliz e equilibrada. Sinto-me que mesmo que chova lá fora e esteja um dia cinzento, o sol continua a brilhar, por cima das nuvens. E eventualmente, amanhã estou melhor e o dia também será mais bonito. 
 
Sinto-me feliz por tentar passar esta mensagem todos os dias. Sinto-me útil e amada. Desculpa Slow J, eu sempre quis mudar o mundo e eu mudo!
 
Assumam as vossas nuvens, procurem ajuda e lutem para acabar com elas. 
Não deixem que elas vos façam esquecer que o sol continua a brilhar e que eventualmente, ele vai voltar a pairar na vossa vida.
 



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