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14
Jan20

40# - carta aberta ao meu coração

por @dianacarvalhopereira

Meu querido e lamechas coração,

 

Sei que esta carta não deveria ser dirigida a ti, já que não fazes mais do que bombear sangue para todas as partes do meu corpo e recebê-lo de volta delas, ainda que contenhas quatro câmaras diferentes e pelo caminho ainda o envies para os pulmões purificarem e te devolverem de seguida. Os meus não devem andar muito bons, já que estou com uma constipação daquelas. Mas provavelmente a rinofaringite nada tem que ver com os pulmões, não divagues. Mas de qualquer forma, se tiveres hipótese, dá-lhes o toque (literalmente) e diz-lhes para se porem finos porque uma época de exames não é de todo a altura ideal para estar doente (e há alguma que seja?).

Mas quero dirigir esta carta a ti simbólicamente, sendo que representas todas as partes do meu sistema nervoso central e sistema endócrino que são responsáveis pelas minhas emoções, sentimentos e pensamentos. 

Meu querido coração, porquê que escolhes amar quem não quer o teu amor? E rejeitas amar quem te faz tão bem? Sim, eu sei, partimos para a psicologia invertida e vais responder-me que o sentimento de rejeição vai deixar-me carente e com vontade de pedinchar por afecto a quem não o quer dar. Tudo bem, eu percebo. Mas se já sabemos os dois disso, porquê que passo a vida a cair no mesmo erro?

Penso nas pessoas que amo todos os dias, às vezes até mais do que o limite saudável. E nele também, mesmo que não o ame. Ele é especial. Mesmo que o esteja a deixar voar para outra peça do puzzle que não só encaixa como faz sentido. E muito embora esteja triste com ele, continuo a gostar dele e admirá-lo de uma outra perspetiva. De uma maneira diferente. Eu sei que um dia vou ficar em paz com ele e com o mundo. Mas neste momento falar com o dito cujo já não me faz nada bem e por esse mesmo motivo, deixei-o ir.

Aquilo que ele fez foi, mais uma vez, ligeiramente maldoso. E se há uns dias eu deixava que a minha amígdala e o córtex frontal fossem desativados por tudo aquilo que eu sentia e achava que ele era, agora já não tenho bem a certeza.

Eu não gosto de magoar ninguém gratuitamente nem de acusar sem saber verdadeiramente as causas que originam certas atitudes. Nem o vou fazer. Vou só escrever novamente, que não quero que ele me fale mais. Não quero que me puxe outra vez para esse novelo onde já não quero estar. Eu achei que os seus demónios já tinham sido sarados de algum modo. Mas não foram. Achei que de algum modo podia ajudá-lo a sarar. Mas ele não quer. Vive completamente dominado por algo muito parecido com um ego. E dói-me imenso confrontar-me finalmente com esta imagem triste dele, que nunca tinha ousado descobrir.

Eu não andei, nem ando, a fazer trabalho comunitário para que a próxima venha e fique com a pessoa que ajudei a reconstruir, sem que ela me retribuísse toda a dedicação que lhe dei e a estima que lhe tinha. 

Ó coração, ainda não percebeste onde quero chegar?

Dói ainda mais saber que mais uma vez, estava quase apaixonada por uma imagem que criei de alguém que não existe. Viver metade do tempo a sonhar acordada tem destas coisas. Construímos todo um mundo encantado que não corresponde ao real. Na nossa mente, as personagens moldam-se ao nosso gosto e parecem muito mais poéticas e bonitas.

Mas eu perdoo-me e perdoo-o. Só não quero ter que lidar com ele e com as suas continúas e discretas maldades à minha pessoa. Porque nunca fiz nada para isso e a única coisa que de verdade fiz nos últimos temos foi ser amável com ele todos os dias. Mas acho que ele ainda não convive bem com isso. Prefere que o maltratem (tal como eu em tempos preferi?). E muito embora seja mais velho do que eu, há coisas nele que de verdade não o são. E não vou escrever muito mais, para parar de dar tiros no escuro a alguém que de verdade já não sei ler.

Só sei que estou orgulhosa de mim precisamente por ter sido mais forte que tu, querido coração. Não deixei que comandasses a minha vida e o meu estado mental. Meti-te no teu lugar e disse-te que possíveis objetos merecedores da tua estima reinam por este mundo fora e perderes tempo com quem não merece ou quem não é adequado para ti é só inútil e desgastante. E não é isto a inteligência emocional, querido coraçãozinho magoado?

Vá, recompõe-te. A vida é muito mais bonita do que achas, aí fechado no interior da minha caixa torácica. Limita-te a funcionar em condições até aos meus 80 e muitos, sem qualquer tipo de patologia degenerativa ou aterosclerótica. 

Eu perdoo-te, querido coração. Perdoa-te a ti também e segue mais forte. Um dia tenho a certeza que vai aparecer alguém que te vai preencher de um outro modo. Até lá, resta-nos aproveitar todas as coisas bonitas que esta vida tem para nos dar... E acima de tudo, agradecer por cada volta que a terra dá sobre si mesma quase tanto como por cada volta que damos em redor do sol. 



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