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10
Jan20

38# - sobre amor próprio e relações

por @dianacarvalhopereira

Alguns pontos prévios:

- Já me reprimi de sair de casa porque odiava o meu corpo;

- Já acordei e descombinei programas com amigos depois de olhar ao espelho, ver-me de cara inchada e com 4 borbulhas a jogar à sueca;

- Já deixei dates plantados à minha espera porque na hora da verdade não me achei bonita o suficiente para ser julgada aos olhos deles;

- Já fiquei ansiosa por ter de sair de casa, passar por pessoas na rua e ter que lidar com os seus olhares.

- Tenho um metabolismo que me odeia e que me faz ganhar 5kg quando como um chocolate - 5kg que só consigo perder com 6 meses de gym. Se não tenho cuidado, tenho gordurinhas a mais onde não gosto.

- Já tive inclusivamente períodos de quase "hibernação" social por deixar que a falta de auto-estima e as inseguranças levassem a melhor.


Em julho do ano passado, tive uma reação anafilática em que fiquei durante uns dias inchada tipo peixe balão e cheia de manchas. Não mostrava a ninguém o meu aspeto porque ainda tinha mais vergonha do que normalmente. Entretanto, durante esse período em que me refugiei em casa, ficava ainda mais desolada quando ia ao instagram e via fotos de miúdas "quase" perfeitas, com peles "aparentemente" impecáveis, com vidas que "parecem" incríveis, namorados "quase" deuses e que gostam de partilhar com toda a gente que assim "vivem". E não há nada mais errado de fazer. Até porque há que ter consciência que existem programas de retocar fotos e de parecer lindérrima mesmo quando não se estava à priori. E a própria maquilhagem faz de nós pessoas "belas". E o instagram permite-te ser seletivo no que publicas, de maneira que não vais pôr as 350 fotos em que ficaste menos apresentável se tiveres uma em que pareces gira. Então essas mesmas miúdas podem ter uma pele pior do que a minha, um corpo feio, uma vida chata.


Quando me refugiei em casa, a dada altura, desliguei-me das redes sociais e comecei a ler ainda mais, a estudar e a cultivar o meu interior, que é no fundo, o que faz de mim alguém verdadeiramente diferente dos demais. Miúdas "aparentemente" giras há muitas. Mas miúdas que efetivamente se esforçam por ser mais do que um corpo, uma cara, uma presença em redes sociais, não há assim tantas.


E passei a dar muito mais valor à beleza que os olhos não captam. Por ser aquela que perdura no tempo e nos faz deixar a nossa marca. E sou tão mais feliz assim...

 

Os passos que temos que percorrer para termos amor próprio são tão diversos e diferentes que é quase impossível generalizar. Mas vou deixar aqui os passos segundo um artigo que encontrei na internet, com a minha interpretação pessoal:

1) trabalhar o autoconhecimento - perceber aquilo que gostamos, aquilo que nos faz felizes, aquilo em que pretendemos investir o nosso tempo e esforço - e traçar planos/ter metas;

2) estar consciente das tuas qualidades - perceber tudo aquilo que faz de ti uma pessoa especial, alguém de que as outras pessoas gostam ou que tu tens orgulho. Se estiveres deprimido, provavelmente não te vais lembrar de muita coisa. Mas lembra-te que isso são apenas neuroquímicos a toldarem a tua visão de ti. E tenta lembrar-te do que gostavas na tua pessoa quando estavas bem;

3) acredita que és capaz - porque se não acreditares, ninguém vai acreditar também;

4) fortalece-te - se já sabes quais são os teus pontos fortes, investe neles de maneira a marcares a diferença nesses campos e te possas orgulhar do teu percurso;

5) observa as tuas relações - percebe o quê que é saudável e não para a tua vida. Prefere a qualidade em detrimento de quantidade, principalmente com amigos. Percebe que mais vale termos poucas pessoas que nos respeitam e estão disponíveis para nós do que muitas que não estão nem aí. Prefere pessoas que te levantam a moral, fazem de ti alguém mais feliz e confiante e que te criticam construtivamente;

6) cuida de ti - porque esse é um grande passo para recuperares o amor próprio: claro que quem já o tem, pode andar despenteado todo o dia, de cara mal lavada e fato de treino e sentir-se óptimo. Mas quem não o tem, convém investir mais em si e nas coisas que o fazem sentir bonito. E é preciso cuidar não só do corpo como da mente. Manter bons hábitos é fundamental;

7) diminui a auto-crítica - percebe que essa não te leva a lado nenhum. Há limites para tudo e tu tens que perceber os teus! Mas sem te sentires mal por isso. Somos humanos e temos que aprender a viver como tal: todos falhamos, todos temos condicionantes na nossa vida;

8) ouve a crítica alheia, mas com cuidado - percebe quando as pessoas te querem efetivamente ajudar a melhorar como ser humano ou quando apenas te querem fazer sentir ainda pior - nesse caso, são pessoas que não são necessárias na tua vida - recicla-as;

9) evita sentir culpa - mais uma vez, há que perceber que somos humanos e vamos falhar. Há é que aprender com os erros para depois fazer melhor. A culpa e o pensar constantemente no passado não te vão dar um futuro melhor. O que te vai ajudar é racionalmente saberes o que falhou para que não volte a acontecer. Mas sem te julgares por isso;

10) procura ajuda - se nenhum destes passos funcionar ou estiveres a sofrer demasiado, não há que ter medo em pedir ajuda. Usa amigos e família com quem tens confiança para tal ou se vires que não consegues com eles, procura um psicólogo. Eles não trabalham só para patologias pesadas. Estão lá para ajudar do mais mísero problema aos maiores. E acredita que te vais sentir melhor em desabafar com alguém que não te julga e te explica o porquê de te sentires assim, tal e qual eu estou a tentar fazer neste texto.

 

Ao mesmo tempo:

- Desde cedo é-nos incutido que só somos pessoas "amadas" quando temos o reconhecimento de terceiros.

- Desde cedo é-nos garantido que se não arranjamos alguém é porque temos um feitio de merda, um físico pouco atraente e "ninguém nos pega assim";

- Desde cedo que moldamos a nossa vida e a nossa felicidade às relações com os outros e ao reconhecimento externo.

 

Mas e aprender a gostar de nós próprios, antes de gostarmos dos outros? Não é isso o amor próprio?

Como vos expliquei, durante muito tempo vivi com problemas de auto-estima que me levavam a não conseguir manter relações, precisamente por não ter esse pré-requisito básico que é gostar de mim antes de gostar dos outros.


Com o passar dos anos e ao amadurecer, felizmente tornei-me nesta Mulher que sabe que mesmo que o espelho não seja bondoso connosco todos os dias, se cultivarmos o nosso interior, somos bonitas para o resto da vida, porque a beleza extravasa de dentro para fora.


E no entretanto, não ter relações não se tratou de falta de amor próprio mas sim o contrário. Quando estou prestes a iniciar qualquer tipo de relação, vejo se existem pilares que a sustentem: que vão desde o amor e a amizade ao respeito e à disponibilidade. Quando falta alguma coisa, exatamente por gostar de mim, não invisto em coisas que à partida já não têm tudo o que precisam para resultarem.


E não sou menos feliz ou menos amada. Mesmo que a sociedade julgue as solteironas como mulheres que ninguém quer ou que são promíscuas e preferem manter várias relações passageiras em vez de algumas duradouras, muitas de nós somos isso mesmo por opção, com sapiência.

 

Todas os relacionamentos são reproduções da relação que temos com nós próprios. Tendemos a procurar pessoas que nos vejam como nós nos vemos. Assim sendo, quanto mais gostarmos de nós e admirarmos a pessoa em que nos tornamos, mais vamos querer alguém que faça o mesmo. Não nos vamos dar por contentes com alguém que nos ache bonita e simpática. Vamos querer bem mais do que isso. Vamos querer alguém que nos trate da mesma maneira como nos tratamos. Porque ter alguém só faz sentido quando a pessoa melhora a nossa vida e complementa-a de alguma forma.

 

Eu prefiro continuar à espera do meu príncipe encantado em vez de apostar em príncipes que não são os ideais. Prefiro continuar a fazer amizades incríveis em detrimento de relações passageiras. Eu prefiro continuar sozinha e feliz, mesmo que também tenha carências e vontade de fazer conchinha. Felizmente tenho pessoas incríveis à minha volta que nunca me deixam sozinha e que me fazem ver que tenho tanta sorte na minha vida que pedir mais alguma coisa era só exagerar na dose.

 

E quando alguém me diz "porquê que uma rapariga como tu ainda está solteira?" eu só respondo "quem manga em mim sou eu!".

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