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25
Dez19

#35 - estar mais presente, aqui e agora

por @dianacarvalhopereira

Lunáticos,

Hoje, como é normal às quintas (neste caso, quarta, já que talvez antecipada pelas festas, a revista já estava no quiosque da bomba quando fui abastecer e aproveitei) comprei a visão e tal como de todas as outras vezes, comecei pela última página. A crónica "Boca do Inferno" do Ricardo Araújo Pereira é, quase sempre, das minhas leituras favoritas da semana. Esta semana o título deixava muito a desejar por ser apenas "No ano 2020". Poderia ser um texto sobre as perspetivas do Ricardo para o próximo ano? Poderia. Mas para isso têm a revista inteira, de previsões e eventos futuros que valem a pena. 

Nesta crónica, inicialmente, fez uma comparação entre o que ele achava que seria o mundo em 2020 e o que as filhas dele temem que seja (ele achava que já podiamos estar a viver noutros planetas, as filhas temem que não consigam viver neste, por exemplo). Mas depois, descreve-nos que o foco da atenção das pessoas, ao longo do tempo, foi mudando e neste momento é o telemóvel. Vivemos todos centrados no uso deste pequeno e tirano aparelho. 

 

E há muito que sinto que este mal me tira demasiados anos de vida.

Dou por mim a sentir-me sozinha quando estou rodeada de pessoas ao meu lado com o telemóvel na mão. Dou por mim a sentir-me sozinha enquanto converso com amigos pelas redes sociais. Dou por mim a deixar o tempo passar demasiado depressa, enquanto vagueio pelos feeds do twitter ou respondo a alguém pelo instagram ou whatsapp. Dou por mim a não fazer tudo o que me propús a fazer para um determinado dia, porque passei demasiado tempo com o telemóvel na mão. Dou por mim a ter saudades de pegar num livro e de ler, quando estou o dia todo a ler aleatoriedades e notícias no telemóvel.

Às vezes páro, tal como o Ricardo, simplesmente para observar as pessoas à minha volta. Estão completamente dominadas, tal como eu, por este pequeno aparelho, que parece que define mais aquilo que elas são do que devia. Ele tem uma saída interessante, que me deixou logo pensativa "...quanto melhor vemos quem somos, menos aguentamos vê-lo numa tela grande. E preferimos não ter companhia, provavelmente porque o espetáculo é obsceno."

Será verdade? Estaremos a "ser" cada vez menos pessoas interessantes e produtoras de conteúdos dignos nas mais diversas artes, em detrimento de sermos cada vez mais consumidores de tudo aquilo que a internet e um telemóvel nos dão? O Einstein um dia disse que "tornou-se chocantemente óbvio que a nossa tecnologia excedeu a nossa humanidade.". Será verdade? Seremos apenas espelhos daquilo que a tecnologia nos coloca à frente? 

 

Há uns tempos vi um vídeo que mostrava o tempo que nos resta com as pessoas de quem gostamos. Para quem quiser ver, deixo aqui o link: https://youtu.be/ZpqxIUdzP1A

Aparentemente, estamos programados para evitar pensar no tempo que nos resta viver. Achamos que ainda temos tempo para fazer as coisas que um dia nos vão fazer felizes. Mas a vida é uma passagem. Hoje estamos cá, amanhã podemos não estar, por muito que a nossa biologia nos leve a reprimir esse facto. Mas como estar presente é o melhor presente, não podemos dar-nos ao luxo de continuar a deixar que a tecnologia estrague aquilo que de melhor temos: as relações humanas. 

 

Está mais do que provado que o uso excessivo de redes sociais não nos traz uma sensação de pertença mas antes uma solidão explicável pela falta de contacto sensorial com aqueles com quem simplesmente teclamos. O toque, o abraço, o beijo, libertam endorfinas e oxitocina, que nos fazem sentir felizes e amados. A oxitocina é um neurotransmissor que está inclusivamente ligado à criação de laços de afecto, ao desenvolvimento de confiança nos outros e à empatia. E perdemos tudo isso ao manter relações meramente virtuais. 

 

Com o avançar da idade, fica mais dificil fazer amigos pessoalmente, principalmente pelas vidas agitadas que levamos e por mantermos grupos restritos de amigos. Mas fazer amigos virtualmente não é mau, desde que os consigamos transportar para a vida real. E desde que não deixemos que o telemóvel e as relações virtuais dominarem a nossa vida.

 

Steve Jobs disse em tempos que trocava toda a tecnologia por uma tarde de conversa com Sócrates, o filósofo. E é tão verdade que precisamos de mais tardes de conversa uns com os outros. Basta ir a cafés para perceber que as relações estão completamente desvirtualizadas e que as pessoas banalizam completamente as relações interpessoais em detrimento do vigésimo sexto scrool do dia no feed do instagram.

 

O Gustavo Nero também escreveu (sim eu sei, mais uma referência) que "Depois que o homem inventou a roda, perdeu as pernas, e no advento da tecnologia... Foi-se o cérebro". O meu maior medo é exatamente este. Ainda há dias desabafei com um amigo que achava que estava com uma memória péssima em relação ao que já foi. Na atualidade, quando queremos argumentar, já não puxamos pela cabeça, vamos simplesmente ao google pesquisar. E tudo isto causa-me ansiedade, porque tal como Harari refere no 21 lições para o século XXI, qualquer dia, a inteligência artificial e os robôs ultrapassam-nos em todas as nossas capacidades. E se até os laços com outras pessoas estamos a perder, o que vai sobrar?

 

Assim, uma das minhas resoluções para o próximo ano é pousar o telemóvel e mostrar-lhe que por estas bandas, ele não domina. Pousar aparelhos eletrónicos e abraçar mais seres humanos, até porque outra resolução é passar mais tempo com os meus.

 

E como já desabafei o que tinha a desabafar e já usei tecnologia tempo a mais no dia de hoje, vou retirar-me para ir ter com os meus amigos e deixar o telemóvel na carteira enquanto conversamos, matamos saudades e aproveitamos bem o tempo que nos resta juntos.

Devias fazer o mesmo!



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