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Lunáticos,

 

   Andam a circular duas correntes de opinião muito distintas sobre este filme e como diversos amigos meus me questionaram se valia a pena perder duas horas de vida com ele quando partilhei com o mundo que o tinha visto, decidi escrever. Mas faço desde já spoiler alert. Por isso não sei até que ponto os vou ajudar a decidirem ou vou simplesmente escrever sobre ele aleatoriamente.

    É óbvio que poderia ter elaborado um texto todo emotivo (e quiça até com "conisses" de gaja sentimental a mais) se o tivesse escrito nas primeiras horas após a visualização do filme. Mas mais uma vez, decidi pôr a Diana emocional a pensar sobre o assunto uns quantos dias para depois escrever racionalmente sobre ele. 

 

    Poderia escrever sobre o realizador Noah Baumbach, sobre a incrível fotografia ou sobre a deliciosa banda sonora do filme. Poderia escrever sobre as pequenas partes cómicas que nos fazem sorrir que embalam a tempestade que predomina neste filme. Mas não tenho competências para tal e prefiro focar-me naquilo que é o sumo da história. Poderia também deixar aqui um resumo da mesma, mas para isso têm a sinopse para ler ou o trailer para ver. Eu vou apenas escrever sobre aquilo que me apoquentou.

 

    A temática das relações maduras que a dada altura falham já não é nova no cinema e o verdadeiro prato do dia na realidade, se formos verificar a taxa de divórcios por cada 100 casamentos, que em Portugal, a título de exemplo, foi de 58,7% em 2018. O que é absolutamente nova é a forma como hoje em dia se expõe isso no cinema de uma maneira tão nua e crua, sem pretensiosismos. E se é mau ir ao cinema para ver um espelho da realidade? Não creio. Porque há muita gente provida de palas. Ou mesmo quem não as tem, pode sempre aprender algo com os outros.

 

    Quer dizer então que hoje em dia, quando alguém se casa em Portugal, é mais provavel que resulte em divórcio do que na manutenção da união. E mais do que isso, o que os números das estatísticas não mostram, é o sucesso das relações de todos os casais que ainda se mantém juntos. Não vou entrar em populismos e afirmar que provavelmente muitos se mantém juntos pelas rendas altas (no caso de casais mais jovens e/ou ainda não estabelecidos economicamente), pelos créditos partilhados, pelos bens ou acima de tudo, pelos filhos, sabendo empiricamente que efetivamente muitas vezes é isso que acontece.

 

    Shakespeare escreveu que "o amor não se vê com os olhos mas com o coração." e eu sinto que o amor acaba por toldar toda a visão que alguém vai ter sobre o filme. Seja o amor que sentem pelos pais ou filhos, pelo companheiro ou por outra pessoa qualquer. As pessoas realmente apaixonadas não conseguem imaginar um término como o do filme à priori. Os filhos de casais que mantém casamentos saudáveis e estáveis apesar da passagem do tempo, também não. E se é importante mostrar que há essa possibilidade de reviravolta e exaustão, mesmo que se mantenha o amor? É. Porque ele é importante mas não pode ser colocado no topo da base daquilo que sustenta um casal. Se fizermos analogia de uma relação com uma mesa, o amor é apenas uma das pernas. E tal como sem ela, é impossível comer nessa mesa com estabilidade, ainda que ela esteja presente, se faltar uma das outras, a mesa deixa de ser igualmente funcional. Não sou suficientemente perita em relações humanas para vos revelar quais são as outras "pernas" das relações. Mas tenho a certeza que uma delas é a realização pessoal de cada uma das partes, mais do que como um todo num casal. E é precisamente sobre a falta dela que o filme também aborda. Não basta que um dos elementos do casal se sinta bem sucedido e que o outro fique apenas feliz por ele. Mais uma vez, uma relação não é a junção de duas metades mas sim a união de dois inteiros. E é necessário que esses inteiros sejam felizes e realizados separadamente. Só depois é que vem a felicidade partilhada e a união estável.

 

    A Scarlett e o Adam vestiram-se tão bem de Nicole e Charlie que eu neste momento só os consigo imaginar como tal (provavelmente até que brilhem em futuros filmes, como sempre). Apesar de adorar a Scarlett e achar que este é um dos grandes papéis da vida dela, pela carga emocional que envolveu e pela belíssima maneira que ela a soube transmitir, o foco da minha atenção foi o meu querido Charlie, por quem desenvolvi uma enorme empatia. Sabem quando sofrem por um amigo que está a passar uma fase complicada? Foi tudo aquilo que senti neste filme. Só me apetecia ligar-lhe e aconselhá-lo, poder abraça-lo e dizer-lhe aquilo que ele precisava de ouvir. E não me venham dizer que é porque sou mulher e gosto de me meter em tudo feita alcoviteira. O Adam conseguiu criar um sentimento empático estranhamente grande com todas as pessoas que efetivamente já estragaram relações por viverem demasiadamente centradas em si mesmas e nos seus objetivos pessoais, sem colocarem no mesmo grau de importância a pessoa com quem estão e as respetivas ambições. E não estou a indicar que esse é o meu caso, ainda que seja.

 

    Sinto que a Scarlett, ainda que tenha conseguido transmitir toda a emoção associada à dicotomia entre o amor que a Nicole sente pelo Charlie e a sua felicidade e realização futura, desde cedo no filme deixa claro aquilo que efetivamente quer fazer como mulher e pessoa individual, embora tenha uma espécie de soluços emocionais que vão deixando no espectador uma ligeira esperança de a ver novamente feliz com o Charlie. E esse, anda metade do filme emocionalmente perdido, sem perceber quais são efetivamente as suas prioridades ou metas. No filme não explica a sua devoção tão grande a NY, que o leva a fazer uma repressão da vontade da esposa de viver noutro estado. De qualquer das formas, a dada altura percebe-se que esse é efetivamente o maior problema do casal. Querem viver em estados diferentes e têm objetivos profissionais diferentes, incompatíveis com a manutenção de um casamento saudável e da relação com o filho de ambos.

 

    Ainda não tinha aqui mencionado o Henry? Acho que é o principal fator agravante neste embróglio que têm em mãos. Porque amor à distância entre um casal não é nada de novo. Escreveu em tempos a Condessa Diane que "a ausência só mata o amor quando ele já está doente na data da partida." Mas a partilha de um filho acaba por tornar essa distância demasiado grande. A dada altura no filme, é assim que começamos a ver Nicole e Charlie. Mais do que amantes, são pais. Pais que não só se preocupam com o bem-estar do pequeno como o querem por perto. E ambos sofrem só com o pensamento de não o terem. E é no fundo, acima de tudo, esta a agonia de ambos, que os faz ter que recorrer a advogados e a tribunais, mesmo enquanto mantém uma aparente paz e relação amigável. Porque embora continuem a amar-se, amam sobretudo aquele resultado do amor que é o Henry. 

 

    Sendo eu filha de pais divorciados, posso dizer-vos que o que me prendeu mais foi exatamente o facto de ambos não quererem desistir do pequeno. A minha experiência pessoal leva-me a crer que muitos dos casais num divórcio centram-se demasiado na quebra da relação e não nos filhos. Mas são efetivamente os filhos que devem ser colocados no topo da lista de prioridades. Porque uma mulher divorcia-se do marido e vice-versa, mas nunca ninguém se divorcia dos filhos. É esse amor que deve ser incondicional, e que passa através deste filme. 

 

     Eu, que não tive a mesma sorte, dado o meu progenitor ter-se "divorciado" também das filhas quando efetivou o divórcio litigioso com a minha mãe, vejo no Charlie um pai em sofrimento mas um verdadeiro pai, que em momento algum põe essa hipótese em cima da mesa. Gostaria de ter tido um pai como ele. E por isso é que o admirei tanto, obviamente fruto da minha história pessoal relacionada com o divórcio dos meus pais, do ponto de vista de filha. Mas é precisamente esse ponto de vista pessoal que nos faz gostar ou odiar seja o que for. Porque temos que rever as nossas próprias experiências e criar empatia com o que está perante nós através de tudo o que já vivemos. 

 

     O meu querido e amado John Lennon algures no tempo afirmou que "as pessoas acham que o amor verdadeiro não existe, porque elas passaram a não acreditar nele, por isso ele foi desaparecendo, ele é como uma pedra preciosa, é raro encontrar, mas não quer dizer que não exista." - e assim sendo, quem nunca encontrou o amor  verdadeiro não sabe que ele existe nem acredita nele. Enquanto pessoa que já encontrou, também consigo compreender e apreciar o sentimento que ambos os atores tão bem transmitiram: mais uma vez, mesmo que haja amor e seja intenso, ele não vale por si só. Existe um leque de outros requisitos necessários para que uma relação saudável funcione. 

 

    Mais do que toda esta sessão de auto-psicoterapia que fiz sobre a minha própria existência e vivências pessoais, aquilo que queria transmitir é que um filme não vale  apenas pelo roteiro brilhante, pelo argumento mais ao menos sólido nem pela excelente interpretação dos atores. Um filme, acima de tudo, vale pela empatia que sentimos ao vê-lo e pelo turbilhão de emoções que podemos sentir mediante experiências prévias, que são tão variadas quanto nós próprios. Por sermos todos diferentes, vamos sentir todos a mesma emoção de maneiras distintas dado o nosso espólio de tudo aquilo que sentimos outrora. 

 

     O final em aberto foi só o culminar de tudo isto: porque cada um, individualmente, pode decidir o fenecimento que queria que aquela história tivesse, a partir dos sentimentos que desenvolveu com ela.

 

    Os bons filmes não precisam de ter uma história mirabulante ou um final que agrade a todos os espectadores. Acredito que uma quota parte de depressões e exaustões emocionais em pleno século XXI também sejam causadas por toda essa falsa ideia que a ficção cria de relações perfeitas e de finais felizes. E é tão bom ver que, finalmente, já se criam tantos bons argumentos que desconstroem o conceito e mostram a realidade. Um filme também tem que ser a vida. E não é menos necessário por já a termos todos os dias. Temos a nossa, que é sempre diferente da dos demais. E temos tanto para aprender com a vida dos outros. Negar este facto é também negar que podemos aprender muito uns com os outros e com as relações humanas. 

 

"Mas, conquanto não pode haver desgosto
Onde esperança falta, lá me esconde
Amor um mal, que mata e não se vê.

Que dias há que n'alma me tem posto
Um não sei quê, que nasce não sei onde,
Vem não sei como, e dói não sei porquê." 

Camões, há quase 500 anos atrás.



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