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05
Abr18

4# filosofias de pobre - canudos e contracanudos

por @dianacarvalhopereira

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     Um dia, em conversa com duas amigas, observei que ambas manifestavam uma ligeira discriminação/preconceito relativamente a pessoas que não possuem um curso superior.  Não que discriminassem totalmente mas pareceu-me terem a mesma atitude face a elas como que a que os wanna be's fit têm em relação à gordura da carne. Metem no canto do prato se houver carne o suficiente para não terem de a comer (mas isto é o meu cérebro de pobre a falar, porque eu como tudo e sabe-me pela vida, bem-dita gordurinha!).

     Concretizando, tudo começou por uma conversa acerca de relações amorosas e o facto duma das minhas amigas me criticar por me conseguir encantar por rapazes que não frequentam um curso superior. Segundo ela, há que gostar de alguém que nos dê perspetivas de futuro. Já a outra, acredita que tenho que encontrar um homem que acompanhe o meu intelecto e o meu "nível" de instrução para que no futuro não tenha problemas de diferenças nos gostos e tipo de estilo de vida, como quando eu quiser ir de férias para Miami e ele não tiver dinheiro para me acompanhar.


      Ora, nada mais errado para mim...
      Respeito a opinião delas mas não concordo.

       Primeiro, porque o amor e a paixão são por uma pessoa, não são por um canudo.

       Segundo, porque já conheci muito boa gente sem um curso superior que consegue ser 10 mil vezes mais interessante e culta do que tantos nerdzinhos que já conheci, inclusivamente do meu curso, medicina, em que metade deles só sabia falar das cadeiras, a matéria que estudavam das mesmas e avaliações. Se perguntasse acerca de Saramago, respondiam-me que leram memorial do convento no 12° porque era livro de leitura obrigatória para o seu 20 a português. Se perguntasse acerca da opinião deles sobre o aborto, diriam que serão objetores de consciência quando exercerem porque o papá e a mamã são profundamente católicos e não temos o direito de tirar a vida a um feto de bem.

      Obviamente que não quero generalizar. Também há pessoas fantásticas em medicina, assim como há pessoas deploráveis sem formação nenhuma. Mas no fundo, acho que a formação é apenas um complemento e a história e conteúdo de uma pessoa pode desenvolver-se de muitas outras maneiras.

    Já conheci tantas histórias inspiradoras de malta que, sem formação, se tornou a melhor em diversas áreas. Steve Jobs só fez meia dúzia de cadeiras na faculdade, se tanto, e foi um GRANDE génio do marketing e comunicação. Uma grande percentagem dos funcionários da Google não têm curso superior. A minha tia, o meu grande orgulho e exemplo como empresária, não tem um curso superior e é fantástica, vive bem e nunca precisou de um canudo para conseguir brilhar. O primo do Lau Toni, que conheci há dias, é grande maioral no grupo do vitaminas/h3/outros e não tinha curso superior, só agora, aos 40 e tal anos, o está a tirar por uma questão de valorização pessoal, porque já tem um óptimo emprego e uma vida estável.

     Estes são alguns exemplos mas há 28272827 outros. Acho que o meu repúdio por profissões superiores tem que ver com o facto da malta dessas profissões superiores tratar mal a plebe. Sim, é isso mesmo. Rico que acha que é melhor do que o pobre só porque tem um emprego melhor.

     Médico que fala mal para a enfermeira e auxiliar, secretárias administrativas que ouvem do Senhor Doutor Juíz, técnico de contabilidade que atura o contabilista, empregado de mesa que é explorado pelo dono do estabelecimento...

     A minha própria mãe, auxiliar de ação médica, passa a vida a dizer que devia voltar à minha formação inicial (Medicina, congelei a matrícula este ano para refletir se é mesmo isso que quero para a minha vida) pois os médicos são tratados como reis no seu local de trabalho. Ora, e porquê que a minha mãe, que tanto ajuda velhinhos e inválidos, os auxilia com os banhos e refeições, com tanto stress e dificuldades, não é tratada como uma rainha no seu local de trabalho? Porquê que chega quase todos os dias exausta de turnos em que trabalhou mais do que devia e o corpo se ressente?

      Acham que eu enquanto médica seria melhor do que ela e merecia mais consideração? Por ter tido a possibilidade de estudar 6 anos e levar grande vida de estudante, porque sim, ao contrário do que se pensa, os estudantes de medicina não precisam de ser todos uns marrões para se safarem. Eu acabei o 3°ano/licenciatura com média de 15 e acho que não me esforcei para o 12 sequer. Passava a vida a sair e a ir ao ginásio, nunca abdiquei de nada e só me comecei a ver grega quando tentei conciliar com trabalho.

      Eu tive essa possibilidade porque apesar de pobre, tenho uma tia que me ajudou. E também tenho um Estado que me ajudou, quando me concedeu uma bolsa de estudos para seguir a minha vontade de continuar a estudar.

      Mas nunca, em momento algum, me achei superior a todos os meus colegas que ficaram apenas com o secundário e foram logo trabalhar. Ou aqueles que nem o secundário acabaram.

      A minha mãe, por exemplo, queria prosseguir os estudos, mas a vida e as suas circunstâncias levaram-na a ter que começar a trabalhar com 14 anos, mal acabou o 9°ano, para ajudar a minha avó que, tal como a minha mãe, era mãe solteira, não porque escolheu mal o marido mas porque esse morrera de doença quando a minha mãe tinha apenas 2 ou 3 anos. Hoje em dia, é feliz como auxiliar, acha que já não tem cabeça para voltar a estudar. Um dos meus maiores sonhos é poder ter dinheiro o suficiente para a conseguir sustentar e ela poder tirar um curso sem se preocupar com o resto.

       Este é mais um exemplo. Mas há N exemplos. Basta viver um bocadinho para saber.

       Rezo para que as pessoas deixem de ser preconceituosas e que passem a respeitar-se um bocadinho mais. Aplica-se a tudo, profissões, raças, sexos, orientações sexuais...

      No fundo, acredito que todas as pessoas são especiais à sua maneira e ninguém é melhor que ninguém. É com essa convicção que devemos viver. Em equilíbrio e convivência com os outros porque como dizia a minha avó, somos todos filhos de Deus e na verdade quando morrermos vamos todos para o mesmo chão ou ser queimados nos mesmos fornos. Um amigo relembrou-me há pouco que há um provérbio, acha que chinês, que gosta muito e se deve aplicar sempre: "No fim do jogo de Xadrez, o Rei e o Peão são guardados na mesma caixa."


       E precisamos de todos para que o mundo funcione.

       Queria ver esses ricaços que tratam mal as empregadas de limpeza, por exemplo, a terem que limpar o entulho que fazem sozinhos. Metade deles é gente pouco asseada que se veria grega para limpar e manter uma casa organizada. 

       Ser pobre - classe média baixa - tem destas coisas. Aprendes a olhar para as coisas com toda uma outra perspetiva. A perspetiva de quem vê vidas melhores, vê vidas piores mas no fundo sabe que estamos todos cá para o mesmo e que não vale a pena stressar.


#pobrefazendopobrice



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