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  1. As europeidas no sofá

Muito se falou acerca deste ponto. Acho engraçado aqueles que unica e exclusivamente atribuem a culpa aos jovens, quando somos a geração mais bem formada (e no entanto, não informada) de sempre. A culpa não foi só dos jovens…

No dia anterior às eleições cruzei-me com um senhor de meia idade no elevador do prédio de um amigo. Eu estava aborrecida porque tinha ficado com o carro preso no estacionamento do continente e só o poderia reaver às 8h30 do dia seguinte e vinha a falar com outro amigo sobre isso. Ele percebeu a situação e perguntou-me “mas a menina tinha algum compromisso tão cedo ao domingo de manhã?” ao qual respondi “sim, tenho que estar às 7h15 em Gaia para abrir a mesa de voto e preparar tudo para as pessoas poderem votar". Ele começa-se a rir e responde “Não é preciso menina, ninguém vai votar.”. Não sei se senti mais raiva ou mais pena dele pelo tom com o qual expeliu estas palavras da sua boca. Poderia responder o clássico “mas vai deixar que decidam por si?” mas limitei-me a responder-lhe que de certeza que ainda existem pessoas com civismo que estarão interessadas em decidir o futuro da comunidade em que estamos inseridos, comunidade essa responsável por inúmeros fundos e apoios concedidos a Portugal que todos os dias nos ajudam a ter uma melhor qualidade de vida. O Senhor continuou para lá a balbuciar coisas que os meus ouvidos nem queriam ouvir, tal como “se ninguém votar, eles vão perceber que ninguém quer este sistema e vão mudar, vai ter que haver uma mudança!”. Sim, e é com a tua europeida no sofá que essa mudança efetivamente se concretiza!

Um pouco por todas as faixas etárias, houve muita gente que não votou, por variadíssimas razões, mas acredito que principalmente por desconhecimento do impacto que a UE tem na nossa vida.

Quando se espalharam memes à posteriori, sobre os jovens que não votaram e que não deviam poder fazer erasmus ou beneficiar de bolsas de estudo, acho que para a maioria dos jovens foi mais educativo e moralista do que as campanhas que se fizeram…Mas já lá vamos.

2. As campanhas iguais há 40 anos

Não conheço ninguém que me tenha dito “eu não ia votar mas entretanto vi a campanha de X e convenceu-me". As campanhas eleitorais em Portugal já são, por si só, ridículas e iguais para todos os tipos de eleições: comícios, arruadas, marchas, dar flyers que dizem muito pouco e canetas que já ninguém realmente precisa.

O Ricardo Araújo Pereira brincou com esta questão dos brindes indicando que hoje em dia, as senhoras de meia idade querem é selos para trocar por peluches do supermercado. Ora nem mais, porque brincadeiras àparte, os políticos e as campanhas deviam sobretudo adaptar-se ao ano em que estamos, ao homem de cada zona do país e à faixa etária que abordam. O marketing eleitoral já viu melhores dias. Talvez se começarem a contratar jovens em vez de colocarem, por fator C, o amigo que tirou o curso há 30 anos e que não faz um esforço por se adaptar aos dias de hoje, as coisas corram melhor.

Talvez se se esforçarem por bons conteúdos digitais, esclarecedores e interativos, consigam chegar aos jovens.

Talvez se se esforçarem por passar a mensagem daquilo que verdadeiramente pretendem fazer, em detrimento de populismos ou de atacarem os adversários, consigam chegar às senhoras de meia idade que apenas querem ver os seus problemas resolvidos.

Talvez se lhes mostrassem caso a caso, o impacto da UE no dia-a-dia das pessoas, elas se mostrassem mais motivadas para decidir o futuro da mesma.

Não sei se é de propósito ou não, a pensarem nas legislativas, senti que muito do discurso foi de índole nacional. Senti que pouco se falou sobre o que realmente interessava falar… E é pena!

3. O voto dos putos

Os miúdos que nasceram em 2000 já foram votar. Nada contra eles, estão no direito, mas se miúdos com 25 anos muitas vezes não votam conscientemente, não me acredito que estes o façam com mais qualidade (embora também não me acredite que a maioria dos idosos o faça também). A grande maioria veio com a cara mais aborrecida do mundo, de arrasto pelos pais (estive na mesa de voto todo o dia e deliciei-me com as suas caras que mostravam claramente que queriam estar em todo o lado menos ali, dado o calor e a praia a 5 minutos).

A minha interpretação do que alguns foram lá fazer, sem nunca terem lido nada acerca de partido nenhum:

As pitas, para além de ainda nutrirem um carinho grande por coisas da infância, ainda não têm grande motivação para um voto consciente e orientado. Os miúdos idem, mas estão mais interessados em tudo o que os permita viver mais young, wild and free. Acho que metade deles votaram no nome mais atrativo que lhes apareceu no boletim.

As meninas foram embaladas pelo espírito do my little poney, e votaram PESSOAS-ANIMAIS-NATUREZA, porque acima de tudo querem ajudar. Os meninos foram mais embalados pela legalização das drogas leves e uma vez que é só charrados na minha terra, votaram todos BE.

Ora nada contra as suas opções, isto foi só a minha explicação idiota para estes dois partidos terem tido resultados tão bons na minha urna.

Mas atenção, é melhor votar pelo amor aos animais ou pela vontade de ter lojas de ganza à porta de casa, do que simplesmente, continuar com as europeidas no sofá. Cada um é como é e cada um com as suas motivações.

4. O exagero de listas e o ridículo das suas medidas

Ora bem, só tive noção do ridículo mesmo no dia das eleições porque antes já me tinha informado das medidas dos partidos maiores (PS, PSD, BE, CDU, PAN, CDS) e de 2 ou 3 movimentos com os quais simpatizei, entre eles a iniciativa liberal, o MAS e a aliança. Não gosto de votar sem saber tudo o que há disponível para a escolha, de maneira que tentei procurar os sites das outras listas ou movimentos e ler na diagonal aquilo que pretendiam.

Obviamente que não consegui estar mais de 2 minutos em sites de listas cujas medidas incluem temáticas como “acabar com as agendas LGBT” ou “expulsar os refugiados". Perdoem-me mas é algo que me ultrapassa. Nem sei como algumas destas listas conseguiram ser aprovadas com este tipo de discurso discriminatório e fascista. Mas isso são outros quinhentos.

Foi impossível para mim, que tento ser uma rapariga informada, informar-me convenientemente acerca de 17 listas/movimentos. Será ainda mais impossível para quem não se dá a esse trabalho. Sei que estamos numa democracia e que todos têm o direito de se envolverem na construção da mesma. Mas foi um exagero de opções sendo que as pessoas, em detrimento de se informarem, desmotivaram-se com a quantidade de coisas que tinham para ler.

5. Partidos ou pessoas

Durante o dia, como já expliquei, estive numa mesa de voto, à semelhança do que já fiz noutras eleições. As mesas são sempre constituídas por pessoas que pertencem ou são militantes ou simpatizantes de vários partidos ou movimentos. Na minha tinhamos um presidente da CDU, uma vice-presidente do BE, uma secretária (eu) a representar o PS (embora não seja militante do partido), um escrutinador da aliança e outra escrutinadora do PAN. Acho que ideologias à parte, em nenhum outro ano me dei conta que somos tão diferentes mas tão iguais. Gostei dos meus colegas e tive diálogos interessantes com todos ao longo do dia, quando a pouca afluência nos motivava a ter 2 ou 3 dedos de conversa para não estarmos aborrecidos na urna. O Senhor da CDU já havia estado no ultramar e contou-me uma série de histórias em que me explicou que quase ninguém naquela altura queria ir defender Portugal face a colónias que tinham direito à sua independência. Mostrou-me que já naquela altura, os jovens tinham ideais modernos e não queriam servir-se de ninguém. Isto foi o ponto de partida para nutrir empatia e respeito por este senhor, que foi obrigado a fazer coisas que não queria. Pelas histórias que me contou e pelo trabalho que toda a vida fez, acho que nos poderia representar. Assim como a rapariga do PAN, que tem 2 cursos superiores mas que está desempregada porque na área da educação, só com mestrado, e não tem dinheiro para pagá-lo. Assim como o senhor da Aliança, que dizia que as olheiras se deviam a não dormir nada de jeito por estar há 3 meses a dar o litro para a sua causa. Com a minha vivência política, aprendi a ver pessoas muito para além dos partidos que representam ou dos ideais que aparentemente defendem. Temos muito mais em comum do que achamos. Acho que todo o método democrático já viu melhores dias e deveria ser repensado. Na Grécia existiam cidadãos livres que contribuiam para a democracia. Obviamente que não queria excluir as mulheres ou criar barreiras. Mas acima de tudo acho que o método de escolha de quem nos representa em todo o tipo de órgãos de decisão deve ser repensado. Deve reinar a meritocracia e a escolha dos “mais aptos” para nos defenderem, em detrimento dos com mais cunhas, com mais primos, com mais influência ou que conhecem mais empresários com quem querem construir planos corruptos.

6. E a tecnologia, onde fica?

Já toda a gente sabe que o voto eletrónico é o caminho, quanto mais não seja para reduzir a abstenção.

Já trabalhei num call-center em que começaram a dar formações através de jogos online cheios de cores e interações, em que nos explicavam a teoria e nos faziam treinar a prática, sendo que depois eramos alvo de avaliação. Acho que a NOS tinha muito a ensinar ao método democrático.

E se, por exemplo, para além do voto eletrónico, as pessoas tivessem acesso a um portal interativo onde para além de conhecerem as medidas das diversas listas, pudessem dar a sua opinião e contribuir construtivamente para a resolução de problemas comuns?

E se, por exemplo, se se estimulasse o debate ácerca das competências dos órgãos europeus nas escolas secundárias e houvesse um portal eletrónico didático para que os jovens se pudessem informar e esclarecer dúvidas, bem como fazer jogos e ser estimulados?

Lembro-me de andar na escola, no 8° ou no 9° ano, e de existirem uns quizz da net segura que nos obrigavam a preencher e que nos motivaram pela competição que faziamos com outras escolas através dos pontos da plataforma. No final haviam prémios para os melhores grupos mas o que nós gostavamos mesmo era de ser estimulados. Hoje em dia pouco ou nada se apostam nestas didáticas.

A tecnologia trouxe-nos um mundo de oportunidades e de novas maneiras de lidarmos uns com os outros. Basta sermos criativos e conseguimos motivar os outros a gostar mais de temas que parecem aborrecidos.

Há tanto para fazer. Eu sou só uma miúda de 23 anos aqui a mandar sugestões para o ar, bem sei. Mas gostava que numas próximas eleições, as coisas se desenrolassem de um outro modo.

Deve dominar a crítica, a análise, a informação e a decisão informada. Devemos acabar com populismos e campanhas velhas e ultrapassadas. Mas acima de tudo, acabar com a vitória da abstenção.

 



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