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01
Mai19

#25 - o dia em que até quase a morrer fui pobre

por @dianacarvalhopereira

Caríssimos,

Não sei se estou ainda bem preparada para partilhar isto com o mundo mas ao mesmo tempo acho que devo fazê-lo para evitar que outros caiam no mesmo erro tão cedo: tive uma experiência de quase morte entre os dias 14 e 15 do mês passado, provocada única e exclusivamente por mim, ainda que sem intenção, e pela minha vontade exagerada de me querer sempre superar e atingir um lado não humano invencível que não existe. 

Tudo começou quando fui colocada como guia de uma viagem de finalistas do secundário e tudo o que isso representava, ou seja: teria que acompanhá-los de Portugal, das respetivas escolas, ao resort, em Espanha num autocarro e vice-versa; teria que estar com os finalistas em vários turnos para garantir a sua segurança e diversão; teria que dormir pouco, dada a frequência de turnos e atividades; teria que superar-me a todo o instante, dada a carga de energia necessária para o restante.

Lidei bem com essas exigências esquecendo-me eu dos meus distúrbios do âmbito de otorrino que me impedem de descansar em condições e me fazem passar dias e dias cansada e quase a dormir de pé. Assim sendo, fui equipada com os mais variadíssimos mecanismos para contrariar essa minha tendência natural de ser um João pestana ambulante. Para além dos vários cafés que bebi, aliado a uma boa dose de bebidas energéticas, durante a semana, levei comigo imensos comprimidos para aquele boost de energia que não conseguiria ter sozinha: os thermo complete, da herbalife e os burn da prozis. Ambos são termogénicos que qualquer pessoa pode comprar sem qualquer tipo de receita médica e que contêm mais cafeína por comprimido do que 4 redbull. Sempre que os tomava (por vezes, mais que um) sentia-me naturalmente bem, cheia de energia, mesmo quando fazia diretas. Acho que nunca me passou sequer pela cabeça ler o rótulo da caixa dos comprimidos e perceber que 2 ao dia já era um exagero, sendo que se misturasse com outros elementos que contivessem cafeína era um exagero ainda maior.

Passei a semana entre comprimidos, muita monster, redbull, cafés e a acordar com shots de comprimidos de gurosan para curar indisposições (que também contêm 50mg de cafeína por comprimido). 

Andava tão acelerada que me sentia invencível - podia dormir pouco e comer muito pouco e nada tinha impacto sobre o meu corpo (ainda que tivesse cometido uns quantos erros pela mente não ser tão fácil de enganar como o corpo e por estar, a quase toda a hora, mentalmente exausta do ritmo)...

Até ao dia (ou neste caso, noite) em que o meu corpo decidiu desistir. Não dormi da última noite para o dia em que abandonariamos o resort de volta a Portugal. Por volta das 9h tomei um gurosan para a indisposição e 2 comprimidos para me manter acordada, limpar o bungallow e estar disperta no check out dos miúdos, justificando a mim própria que assim dormiria depois no autocarro, na viagem de 20h que me esperava. Passado pouco mais de 2 horas, parecia que o efeito já tinha passado (dada a resistência que fui criando durante a semana) de maneira que bebi um café com um colega. Ainda não chegava. Sentia o corpo elétrico mas a cabeça queria muito descansar... Fui comprar uma monster um pouco por estar tão cansada que não associei tudo o que já havia tomado a algum perigo em específico de sobredose. Quando entrei no autocarro já sentia palpitações, embora achasse que fossem apenas do stress. O ar condicionado e o calor do mesmo fez piorar a gripe que já havia encubado à priori fruto das diferenças gigantes de temperatura entre o interior e o exterior da discoteca Pachá de Salou, onde passamos as noites com os nossos finalistas. Sem me lembrar da quantidade absurda de cafeína que já havia tomado, tomo um griponal para me sentir melhor. Algo de errado se passa com o meu fígado e não metaboliza o medicamento? Passadas algumas horas de viagem, peço um brufen aos motoristas para poder melhorar, dada a dificuldade respiratória e dores de garganta. Quando me deram, numa paragem, já tinha tonturas, náuseas e sentimento de quase desmaio. Cheguei ao autocarro e bebi mais um shot de gurosan para a indisposição e dois anti-histaminicos fracos para dormir. Foi o gatilho? Não sei.

Sei que 5 minutos depois, me senti a morrer. Deitei-me no chão do autocarro para dormir. Avisei os meus colegas que me estava a sentir mal, peguei num saco que coloquei ao meu lado se tivesse vontade de vomitar, bem como água. Liguei à minha irmã para avisar que não me estava a sentir nada bem e que iria tentar dormir mas para ela estar atenta ao telemóvel. 

Passado poucos minutos, começam os tremores, a dificuldade a estabilizar o corpo, com pseudo espasmos de dor, a taquicardia exagerada acompanhada de taquipneia/dispneia, os suores e a boca muito, muito seca. Comecei a chorar porque nunca me tinha sentido tão mal. Formigueiro nas mãos, deixo de as sentir. (Estou neste momento a chorar só da recordação.). Digo aos meus colegas, em choro, que não sinto as mãos. A boca começa a fugir-se para o meu lado direito, as palavras fogem também e eu sinto claramente que estou a ter algo semelhante a um enfarte ou um avc. Desmaio. Volto? Não volto mas ouço o que dizem à minha volta. Estão todos sem saber o que fazer e eu aparentemente desmaiada mas a ouvir. Dou-me conta que não consigo controlar nenhm músculo do meu corpo, a não ser os esfíncteres. No meio de tudo isso, eles medem-me o pulso e dizem que não tenho. Achei irrisório dada a taquicardia e às palpitações que continuava a sentir mas não conseguia expressar-me. Senti que não iria sair com vida do autocarro. Não sei precisar quanto tempo estive desmaiada mas a dada altura começo a conseguir mexer, a tremer, a mão mais perto da minha cara e chegá-la à boca, balbuciando mal a palavra água, que eles não perceberam logo mas não tardaram a perceber. Deram-me água, que tive que chupar de uma mão encostada à minha boca aberta porque nem a língua conseguia mexer. Mais tempo nessa rotina em que mexia pouco mais do que uma mão e mal. 

Mais uma vez, sem saber precisar passado quanto tempo depois, começo a ter controlo dos músculos da minha cara e da língua. Começo a conseguir falar em condições. Peço aos meus colegas para ligarem para a linha de saúde 24 e explicarem a situação. Nunca, durante a conversa, referi as doses exageradas de cafeína por nem ter feito caso disso, dado o cansaço. O enfermeiro explicou que podia ser um ataque de pânico, o que não me caiu muito bem dado o facto de eu não ter estado em nenhuma situação particularmente stressante antes. De qualquer modo, precisava de assistência imediata que me foi negada, num primeiro nível, pela minha irmã ter falado com os meus colegas e ter dito para me levarem para o Hospital em Portugal (aquela santa noção de quem não percebe nada de perigo) sendo que estavamos ainda a algumas horas da fronteira. Numa segunda fase, pelos motoristas, que decidiram que depois de eu recuperar o movimento de braços e pernas (quase 2h depois do início, pelo facto de estar com vontade de urinar e terem pegado em mim ao colo para o fazer e eu entretanto consegui controlar o corpo) estava o suficientemente estável para não pararem num Hospital. Fiquei confusa. Continuava a sentir-me com febre e com palpitações. Continuava com muita dificuldade respiratória e com pulsos próximos dos 160, parada no autocarro.

Disse a mim mesma que não poderia continuar a facilitar e disse depois aos motoristas que teria que parar para ir ao Hospital, algo que me foi constantemente negado. Estavamos a passar Leiria quando decidi impor-me e afirmar que eu iria sair na estação da mealhada para apanhar um taxi para o Hospital de Coimbra, dada a falta de sensibilidade dos motoristas para me levarem a um qualquer.

Saí do autocarro pelo meu próprio pé, chamei um taxi e esperei na estação de serviço. O taxista, o senhor Eduardo, era incrível e ajudou-me imenso.

Cheguei ao Hospital com febre e desidratada. Soro e choro. Ansiolítico. Conto a história, versão sem cafeína - ataque de pânico? A médica, boa o suficiente, lembra-se de perguntar o que comi e bebi antes, com medo de drogas. Só aí me bateu a noção. Expliquei do café e derivados. Diagnóstico: intoxicação por cafeína.

As autoridades de saúde pública recomendam limites para o consumo diário de cafeína. Um dos estudos mais famosos – e que virou referência mundial – foi feito em 2003 por pesquisadores da Health Canada, a agência de vigilância sanitária do governo do Canadá. Os pesquisadores chegaram à conclusão de que a ingestão de 400 miligramas (mg) de cafeína por dia para os adultos é segura: parece não produzir efeitos colaterais significativos.

Os comprimidos, por si só, tem 200mg. O café tem entre 50 e 100. Uma monster, entre 100 e 200. O gurosan, 50mg. Façam as contas.

Ingeri numas horas perto de 800mg. Por burisse e parvoíce coloquei a minha vida em risco. Podia ter morrido de ataque cardíaco dentro de um autocarro.

 

"Mesmo entre os adultos o uso excessivo de cafeína pode causar efeitos colaterais desagradáveis. E não é uma boa opção para pessoas altamente sensíveis aos seus efeitos. E ainda, o uso exagerado de cafeína durante o dia – mais de 500 a 600 mg por dia – pode causar os seguintes efeitos: 

  • Insónia.
  • Nervosismo.
  • Inquietação.
  • Irritabilidade.
  • Dor de estômago.
  • Batimento cardíaco rápido.
  • Tremores musculares.

E no caso do consumo de cafeína em excesso os possíveis sintomas são:

  • Dificuldade para respirar.
  • Confusão mental.
  • Convulsões.
  • Diarreia.
  • Tontura.
  • Alucinações. 
  • Aumento da sede.
  • Arritmia cardíaca.
  • Espasmos musculares.
  • Taquicardia. 
  • Vómitos." 

https://minhasaude.proteste.org.br/cafeina-quantidade-ideal-a-ser-consumida-por-dia/

O nosso corpo é um templo. Devemos valorizá-lo como tal e parar de achar que conseguimos ser donos do mundo e aguentar tudo. Temos que colocar a nossa saúde à frente de tudo o resto.

Eu nunca tive uma experiência tão má na vida. Senti mesmo que ia morrer e liguei à minha irmã a dizer-lhe que se eu nunca mais mexesse braços e pernas e ficasse dependente preferia morrer. Sofri muito. Muito mesmo. Mas foi uma boa lição para retirar, de vez, o café e os comprimidos de super-herói da minha vida.

E fiquei com tanto medo da morte (coisa que até então era inexistente para mim) que a primeira coisa que fiz quando cheguei a casa foi comprar um salto tandem de avião para "fazer o que ainda não foi feito". Só vives uma vez. Mas há que viver com qualidade e não estragar a nossa saúde em vão.

Moral da história: somos humanos e ambicionar mais do que isso é automaticamente errado. 

 

Neste link podem ver um artigo da visão sobre os efeitos do excesso de café no nosso organismo: http://visao.sapo.pt/atualidade/19-efeitos-secundarios-do-excesso-de-cafeina=f803349



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