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Primeiro ato - sensibilidade e emoção vs. razão 

Quatro e trinta da manhã, o meu cérebro faz trimmmmmmmm e não me permite descansar mais. Não sei, nem é caso aqui para a conversa, se ele porventura compreende que sempre que me provoca desta maneira, está a invalidar neurónios que de outra forma me impediriam de ter alzheimer precoce ou outra demência qualquer do século XXI. Serei lunática? Dali afirmava que a sua única diferença em relação a um homem louco é que ele não era louco! Não obstante, ser lunática é muito para além de ser "maluca": é viver constantemente numa realidade paralela em que escassas pessoas habitam - a da sensibilidade. Sou sensível a tudo o que me rodeia de uma maneira muito particular e peculiar: respiro oxigénio e azoto e, antes de deixar que qualquer espécime de dióxido de carbono ou outro tóxico cá entrem, inspiro as vibrações e as emoções dos outros e acabo a expirar as que eu própria emito. Respiro, entranho, processo, numa foto ou quimiossíntese qualquer em que pouco ou nada faz sentido até porque felizmente acho que ainda não pertenço ao reino das plantas ou ao dos eucariontes. Deixo que os meus nada poupados pulmões (porque ainda que não fume, vivo em cidades extremamente poluídas e já trabalhei em locais cujo cê ó dois devia ser de mais partes por milhão do que o belo, comburente e indispensável ó dois!) façam o seu trabalho mas não sem antes o córtex cerebral e sistema límbico se meterem "ao barulho", como dizem os antigos, e quererem simultaneamente o papel principal numa peça de teatro de um só protagonista. Razão ou emoção, eis a questão. Escreveu ainda Hazlitt sobre as emoções que "o homem é o único animal que ri e chora, porque é o único que se impressiona com a diferença que há entre o que é e o que devia ser". Será este o cerne da questão?

 

Segundo ato - diferença ou superioridade

Finalmente acabou o primeiro parágrafo,  que vocês de certo pensam que deveria ter terminado há cinco frases atrás. O meu ritmo é diferente do da maioria e atenção que a diferença não é melhor ou pior, é apenas e só o que a própria representa. Hoje vim cá tentar escrever sobre viver alienada da pobreza em tolerância.

Helen Keller algures no tempo escreveu que o "resultado mais sublime da educação é a tolerância" e eu subscrevo em demasia. Vou ainda tentar desmistificar o que esta é para mim e como saber contorná-la. Porque já sabem, ou deveriam saber, que a pobreza é muito mais do que a simples falta de dinheiro, sendo essa nada menos do que sanavel. E a pobreza em tolerância ou intolerância, se preferirem, é a representação daquilo que não queremos nem devemos ambicionar: é, na grande maioria das vezes, criticar o outro sem grande moral ou bases teóricas para o fazer. Também não deixa de ser querermos ter razão a todo o custo sem ouvir o outro e deixá-lo expôr a sua própria verdade, que não, nem, nunca, jamais, é menos correta que a nossa. É ainda acreditarmos que somos donos da única possível. Hoje em dia há tantos comentadores de meia tijela como parvos de quarto de caneca: as pessoas deixaram de refletir sobre as suas próprias falhas antes de ressalvarem as dos demais. Utilizam o escárnio e o mal dizer com a mesma frequência que usam a falta de noção. Cury ensinou-me que "a sabedoria superior tolera, a inferior julga; a superior perdoa, a inferior condena". Ainda têm tempo vós de pensar, tudo bem criatura, estás a fazer um texto a condenar quem crítica, estás a ser igual a eles. Mas na verdade não porque não me acho melhor que eles, apenas mais rica em tolerância sendo que de certo eles são mais ricos que eu noutros aspetos. E aquilo que realmente condeno é quando não só criticam os outros como se acham superiores ao ponto de serem mais indispensáveis que os demais, mas já lá chegaremos.

 

Terceiro ato - me, myself and I

Na atualidade tornou-se comum toda a gente querer ter opinião sobre tudo, excepto sobre si próprio. As pessoas emitem as críticas sobre tudo antes de se auto-avaliarem primeiro. Conhecem variadissimas outras realidades sem se verdadeiramente conhecerem num primeiro capítulo indispensável. Penso ainda que quando não somos o cerne da nossa existência algo está verdadeiramente errado, porque egocentrismos à parte, nós somos donos da nossa própria realidade e somos nós os únicos que podemos e devemos ter impacto significativo sobre ela. Com isto não quero retirar a importância do outro nas nossas vidas, até porque já ené ao quadrado de vezes a referi em variadíssimas publicações. Mas o outro só é o que vemos nele e só tem a importância que nós lhe damos. Exatamente como as emoções, que só tomam as proporções que nós permitimos que tomem. Temos connosco o leme do barco da vida ainda que muita gente não saiba timonar. É algo que faz sentido aprender para que faça realmente sentido viver. 

 

Quarto ato - enzimas de tolerância 

E depois de dispersar por caminhos favoráveis, parques urbanos de conceitos e sistematizações, resta deixar a mensagem principal: o que faz de nós verdadeiramente sensiveis é perceber e digerir, com enzimas de tolerância e respeito, a realidade do resto do mundo sem acreditar à priori que a nossa é melhor ou mais certa. É fazer um esforço para perceber quando os dogmas tentam ser os ditadores do reino e acreditar piamente que só não toleramos o intolerável e que esse é o cume de uma montanha verdadeiramente mais alta do que o que actualmente conhecemos. Não deixa de ser curioso que as intolerâncias alimentares normalmente acontecem por baixa quantidade de enzimas que permitam digerir um dado macronutriente. A intolerância na vida é então falta de enzimas de tolerância? E quais são elas?

 

Quinto ato - desilusões humanas

Fomos feitos para conseguir ser extraordinariamente bem sucedidos em tudo na vida mas o que assistimos diariamente é uma mão cheia de desgraças em que o Homem está quase sempre na vanguarda da ignorância, desrespeito, intolerância e da falta de sentido para a sua vida. Matam por diferenças em vez de as valorizarem e de perceberem a sua riqueza. Matam sem misericórdia. Matam por religião, por dinheiro ou por políticas e dominâncias absurdas. Acabam com a vida dos demais pela simples ideia que são de algum modo superiores aos entretanto já mortos. Temos imensas provas dadas, ao longo da história da humanidade, de que tal sistematicamente acontece. Vamos dizimar os povos que consideramos menos aptos para viver? Ou os povos que por sorte vivem em zonas com bastantes matérias-primas? Ou ainda aqueles que são mais inteligentes ou trabalhadores e uma ameaça para a nossa economia por serem melhores que os nacionais? Tamanha falta de consideração deixa-me verdadeiramente triste e desiludida. Mas querida, tens que ser forte porque ser assim sensível não te vai levar a lado nenhum, as flores de estufa morrem quando de lá saem e enfrentam em condições adversas e tu tens que ser mais perspicaz que os restantes. E se eu não quiser? E se eu quiser continuar a ser fiel a mim própria e a viver no meu próprio universo paralelo em que sou feliz mas não deixo de sofrer e de absorver com imensa intensidade tudo o que me rodeia? Então vais sofrer para todo o sempre. Mas e se sofrer for a verdadeira maneira de perceber o outro, então assim seja. Vou ser para sempre uma inconformada, ainda que desiludida e triste por variadíssimos motivos.

 

Sexto ato - o caso da política e a falta de interesse

Nas televisões, fala-se mal dos políticos que são irmãos de xis e pais de ipslom. Da boca do povo saem termos e diálogos que deveriam ser inaudiveis pelo conteúdo muco-purulento que deveria ser reprimido. Mas acham-se verdadeiramente no auge da sapiência quando na realidade nem foram votar nas últimas eleições ou então votaram sem sequer lerem os programas de mais do que um ou dois candidatos. Queixam-se que estagnamos mas nada fazem para sairmos da lamúria. Criticam o outro sem antes darem conta que nem meia dúzia de papéis com "mentiras", como gostam de lhes chamar, foram capazes de ler. Nunca, em momento algum, afirmei que a minha forma de viver é mais digna do que a destes sujeitos mas é sobretudo mais atenta e preocupada. Esforço-me todos os dias para conhecer um pouco mais do que no dia anterior. E assim sendo, sou incapaz de votar no que desconheço e uma vez que repugno a abstenção, obviamente tenho que me informar com todo o material disponível antes de me pronunciar e dar o meu veredicto. E não é novamente que o meu seja o certo. É apenas o meu. Sim mas tu deves ter tempo, os demais não têm. Não têm ou não fazem um esforço para ter. Devias quiça parar de relativizar, assumir posições mais extremas sobre tudo e não teres medo de criticar o fortemente intolerável. Não é menos verdade que o que isso é hoje pode não o ser amanhã. Nem é menos honesto que essas posições se possam divulgar e prolongar-se assim no tempo e demonstrar uma ignorância tal de quem apenas se pronunciou sobre algo numa altura muito determinada e específica da sua vida...

 

Último ato - desistência ou resignação

Estou cansada. Acho que já nada do que possa escrever vai expressar a exaustão mental que enfrento ao absorver tanto os outros, no que de melhor e de pior têm. A intolerância parece não ter solução à vista. Mas já dizia Benjamin Franklin que "viver é enfrentar um problema atrás do outro. O modo como você o encara é que faz a diferença" e por esse mesmo motivo, mais do que tudo estou feliz. Feliz por sentir que de algum modo posso ajudar, nem que seja apenas uma pessoa, a ver o mundo com outros olhos que não apenas os dos órgãos dos sentidos e a relativizarem e não condenarem as diferenças à partida.

Foi Aristóteles quem afirmou que "o historiador e o poeta não se distinguem um do outro pelo fato de o primeiro escrever em prosa e o segundo em verso. Diferem entre si, porque um escreveu o que aconteceu e o outro o que poderia ter acontecido" - e acho que eu vou apenas continuar a tentar escrever sobre o que poderia ter acontecido ainda que com muita esperança que realmente a intolerância desapareça e que eu humildemente possa efetivamente contribuir para tal.


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