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São 6 da manhã. E eu trabalho desde as 4h30 numa candidatura a um fundo para a Associação que presido. Gosto da noite. Gosto de trabalhar focada sem receber mensagens ou chamadas. Gosto da @thepineapplemind e do orgulho que sinto em tudo o que estamos a construir.

Há 3 anos seria impensável para mim perder tanto tempo com algo que não traz benefícios a curto prazo. Vivia alienada do que realmente importava, fruto de tantas lacunas no meu desenvolvimento e na criação da minha personalidade. Já escrevi algumas vezes aqui sobre essa fase louca que foi o pré e pós depressão, em que tive que me encontrar e descobrir o que realmente me movia e me deva vontade de continuar nesta jornada que é a vida.

 

Acho que foi quando me enviaram a primeira mensagem de agradecimento através do instagram do projeto que percebi que afinal aquilo que fazia também me podia dar um prazer a curto prazo que se transformava num ainda maior a longo prazo. Esses agradecimentos elevam-nos o ego de uma forma mágica e ajudam-nos a perceber que temos impacto. E esse impacto é quase viciante. Queremos ser super-heróis. Perceber que temos uma quota parte de culpa na mudança de hábitos de quem nos rodeia e na promoção do bem-estar e qualidade de vida é qualquer coisa de extraordinário, mesmo sem o diploma de médica, ainda.

E é por isso que dou o que tenho (e às vezes o que não tenho) por este projeto que era meu e passou a ser de todos mas que continuo a liderar e a amar da mesma forma. Dei um bocadinho de mim ao mundo com muito medo que o mundo não estivesse pronto para recebê-lo. Mas o mundo surpreende-nos e mostra-nos que devemos, acima de tudo, confiar mais uns nos outros. Já disse várias vezes que tenho a melhor equipa do mundo e hoje estou novamente super orgulhosa do que temos construido. Do apoio e do esforço de todos, enquanto voluntários, para fazer isto acontecer e conseguirmos celebrar vitórias a um ritmo alucinante.

 

O Joel é um rapaz de 25 anos que nos pediu ajuda durante o confinamento. Sentia-se sozinho, perdido e não tinha coragem de desabafar com a sua rede de suporte. A Raquel foi a voluntária que esteve lá para ele. Que o ouviu, que o ajudou na sua psicoeducação e que lhe mostrou que não estava sozinho e que havia motivos para voltar a ter confiança na vida de novo. Há 1 mês recebemos nova mensagem do Joel. Desta vez não veio pedir ajuda mas sim afirmar que meses depois do início do seu acompanhamento, se sente apto para dar aos outros tudo aquilo que recebeu. E é esta a magia das comunidades integradas de saúde mental. Os voluntários não são médicos mas podem salvar muitas vidas.

A Raquel é um ser humano extraordinário, com quem tenho o prazer de trabalhar todos os dias e que também já me ensinou muito. A Raquel foca-se na causa e não nos meios. É linda, por dentro e por fora e em tudo o que produz. É querida, afável, trabalhadora e amiga. É para mim um verdadeiro prazer contar com ela.

 

Podia falar-vos de outros tantos colegas/voluntários, mas apetece-me focar no Rui. O Rui é psicólogo júnior e Coordenador Nacional do Departamento da Sensibilização. Conheci-o através dos friends e gostei logo dele, pelo cuidado, educação e delicadeza no trato. O Rui tem sido um colega de equipa exemplar, sempre disponível. O Rui conhece-me há relativamente pouco tempo mas já tivemos algumas conversas sobre nós e sobre a vida. O Rui esteve um fim-de-semana inteiro comigo num bootcamp de empreendedorismo de impacto (sim, há mais gente que quer ser super-herói como nós e ainda bem!). Quando nos inscrevi, o Rui andava em baixo e usei a inscrição como uma arma para o levantar. Porque sim, o Rui é dessas pessoas que, tal como eu, se elevam com o trabalho que produzem e se sentem automaticamente mais úteis e felizes. O Rui tem algumas inseguranças, como temos todos. Mas é maravilhoso e devia saber isso: é trabalhador, é profissional, é organizado, é metódico, tem paixão. E acima de tudo, acrescenta valor a tudo em que põe as mãos. Foi incrivel contar com ele para me preparar para um pitch perante um juri, que iria avaliar o nosso projeto de impacto social. Independentemente dos resultados, aprendemos muito, crescemos e elevamo-nos mutuamente. Sinto que é uma das amizades mais poderosas que estou a criar, precisamente por isso. Aproveitei esta reflexão para o tentar elevar novamente, mostrando-lhe a importância que ele tem e pode ter na vida que os rodeiam. Na minha vida, na vida dos outros 28 da equipa, na dos friends que acompanha no nosso projeto de voluntariado, na dos milhares que acompanham o material que produzimos... E na de tantos outros. (Por isso, quando achares que não consegues fazer a diferença, lembra-te de tudo o que já conseguimos e de todas as vitórias que ainda estão por vir!)

 

Não menos importante (ainda que lhe possa reservar mais reflexões futuras), o Flávio: o Flávio é a minha pessoa favorita. Ontem, quando me preparava para o pitch do projeto, fiz com ele uma vídeochamada. Ainda que ele não faça parte da Direção da Associação (sendo que agora é associado!), está por dentro de tudo porque tem sido parte integrante do meu dia-a-dia e quem mais me atura a falar sobre trabalho. Porque o meu trabalho é a minha paixão e quando é assim, deixa de ser trabalho. E em boa verdade, sou mais voluntária do que trabalhadora, já que aparentemente não recebo nada. Mas recebo tanto! 

Voltando ao Flávio, ele ouve-me, mesmo quando sou demasiado faladora e dá outputs. Ele é simples, honesto e genuino, não tem medo de me contrariar nem de dizer algo que não me vai agradar à primeira vista. E é tão bom vê-lo a ajudar-me a descomplicar e a perceber certas ambiguidades que nem tinha pensado. Dizem que por trás de um grande homem está sempre uma grande mulher. Tenho a certeza que sim. Mas neste caso, queria apenas dar feedback que nas últimas semanas, por trás desta grande mulher, tem estado um grande homem, que me ajuda a relaxar, a desligar do mundo e a entrar num estado de transe emocional tão forte que me esqueço do resto. E isso é impagável. Obrigada por isso e por tantas outras coisas. Em boa verdade fazes mais por mim do que aquilo que achas e, por consequência, tens impacto na Associação também.

 

Desfoquei-me do objetivo do texto, trabalhar para o impacto. Mas a verdade é que só conseguimos fazê-lo quando temos amor, também pelas pessoas que nos rodeiam e contribuem para a nossa produtividade. 

 

O José ontem fez um tweet viral a contar a sua história. O José teve uma infância traumática, um pai com stress pós-traumático e alcoólico, um irmão toxicodependente e uma mãe que o queria entregar para adoção aos 15 anos. A mãe abandonou-o. Ele ficou perdido, sem ninguém. O irmão fez reabilitação e tratou a dependência. O pai melhorou. O José perdeu o pai e o irmão. O José dançou com a mãe no funeral do irmão. O José teve uma depressão. O José está a recuperar. Não teve medo de nos contar isto tudo e de o fazer em busca de inspirar quem sofre a pedir ajuda. Para mim o José é lindo, mesmo sem o conhecer, e deitei umas lágrimas a meio das formações enquanto lia a história dele. A pensar "é isto mesmo"! Convidei o José para trabalhar connosco.



Viver para o impacto é não estar minimamente importada com o saldo da minha conta daqui a 6 meses mas estar profundamente importada com o saldo da conta da Associação, dado que guarda o dinheiro que financia as nossas atividades e nos ajuda a chegar às pessoas. É como se o dinheiro fosse agora um meio de fazer o bem e não de poder económico. Mas mais do que isso, a falta dele obriga-nos a ser criativos e a fazer muito, com pouco. E é maravilhoso perceber até onde conseguimos chegar assim. Muitas vezes já me perguntaram se alguma vez pagamos promoções nas redes sociais. Respondo sempre que não, porque se o nosso trabalho for bom, as pessoas vão ver ou vamos ter que chegar até elas, de uma forma ou de outra. E é para isso que cá estamos. Para trabalhar tanto e tão bem para daqui a uns anos, não haver quem não saiba quem somos. Mas acima de tudo, com um fim último: mudar o paradigma da Saúde Mental em Portugal e sermos tão eficazes que deixe de ser necessário a existência da nossa Associação porque o estigma acabou e as pessoas respeitam tanto a Saúde Mental como a física. Espero não ter que chegar a velhinha para esta ser uma realidade. Espero que o impacto do que fazemos seja exponencial e que continuemos a mudar vidas.

 

E agora vou dormir um bocadinho, para daqui a umas horas voltar ao trabalho com força. 

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