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11
Mar20

47# - manifesto anti-Diana

por @dianacarvalhopereira

Lunáticos,

 

São 5 da manhã e eu não consigo dormir. Estou com dores de costas provocadas por ter tentado dormir num colchão de encher, em detrimento de uma cama, tendo eu uma escoliose estrutural de base que de tempos em tempos decide bater à porta dizendo "eu ainda estou aqui", enquanto me traz dor ciática que irradia para a perna direita. Decidi escrever porque tenho o cérebro demasiado ativo e desperto, com as dores.

Um dia aprendi um exercício de psicoterapia relativo à resiliência e auto-compaixão que passsava por enumerar todas as nossas qualidades. Aqui vou fazer o contrário. Enumerar todas as coisas que considero serem um defeito em mim no meu dia-a-dia. E não porque quero mudar. Mas sim porque me aceito, tal e qual como sou, ainda que um dia possa mudar algumas destas características com a normal maturidade que adquirimos com o passar dos anos. Acho que este novo exercício, ainda que não apele à tal auto-compaixão, apela à humildade. E humildade nunca fez mal a ninguém. Por isso aqui vai:

 

Quando acordo, nem sempre tenho vontade de me levantar. Sou preguiçosa. Há dias em que me apetece entrar numa relação séria com os meus lençóis quentinhos e fazer deles o meu mundo. Há outros em que tenho energia a mais. Mas medito sempre antes de me levantar. Gosto de ganhar percepção do meu corpo e da minha mente antes de os mobilizar. Relaxo tudo antes de começar o ritmo frenético do dia. E às vezes até demais, porque volto a adormecer e depois atraso-me para as aulas. E arranjei solução, pondo um alarme para vinte minutos depois, precisamente para não faltar às aulas da manhã. Mas nem sempre resulta.

Não consigo começar o dia sem leite com café. Sei que devia eliminar o leite por sermos o único mamífero que bebe leite a vida toda, mas bebo sem lactose para ser mais leve. Normalmente coloco em proporções iguais leite e café. Se não beber fico mal disposta e resmungona e sinto que falta algo. Gosto muito de ler enquanto o bebo. Sou muito esquisita quanto ao que comer de manhã. Às vezes até me apetece pão e não é para rimar mas, na maioria das vezes, não. Às vezes como fruta. Mas sou meia nojentinha então na verdade tenho que me obrigar, caso contrário só me apetece o meu café com leite.

Gosto tanto de ler. É tão prazeroso que por vezes dá-me alguns pseudo-orgasmos intelectuais matinais, se o livro for bom. E começar o dia a ler deixa-me bem disposta porque sinto que já estou a aprender alguma coisa. Mas bem, já estou a fugir à questão, que é apresentar todos os meus defeitos visiveis num dia normal. Às vezes (na verdade, na grande maioria dos dias) leio mais tempo do que devia e depois tenho que andar apressada a arranjar-me. 

Em alguns dias, arranjo-me demasiado para quem vai só para as aulas. Noutros, não me arranjo de todo, visto uma sweat cansada e amarro o cabelo. As pessoas devem pensar que estou de ressaca. Mas não me afeta porque sei perfeitamente que sou a mesma pessoa que noutros dias se arranja bem, sem prejuízo da minha auto-estima.

De qualquer forma, independentemente de me arranjar muito ou não, chego quase sempre atrasada. Acho sempre que tenho tempo porque depois de meditar, fico demasiado relaxada e lentificada na minha rotina matinal com pouco tempo para fazer muito. E irrita-me ter noção disso e continuar a ser uma atrasada de todo o tamanho. A pontualidade é algo que exijo aos outros e que eu própria não cumpro. E esses moralismos exigidos que não concretizo são a falácia do "to quoque" que é o meu dia a dia e provavelmente uma das coisas que menos gosto em mim. Sou demasiado permissiva e auto-indulgente quando deveria pedir de mim o mesmo que peço de outrém.

Saio de casa e gosto de ir ouvir música até ao Hospital. Não gosto quando chove e penso sempre se não fiz nada no dia anterior que motive a fúria do S.Pedro. Gosto de ir sozinha a ouvir música em detrimento de ir acompanhada. E não é que não goste de pessoas. Eu gosto! Mas também gosto de estar introspetiva nas primeiras horas do dia e ser ligeiramente solitária. Não tenho mau génio mas prefiro passar a primeira hora do dia só na minha companhia.

Chego à faculdade quase sempre demasiado ativa e bem disposta. Sei que é mau porque a grande maioria das pessoas não quer levar com tanta energia logo de manhã e deve pensar que eu me droguei ou assim. Acho medianamente engraçado e lembro-me sempre do sketch da porta dos fundos da míuda excessivamente alegre de manhã. Sou eu quando chego! 

Sou muito interessada, às vezes até demais. Sei que às vezes monopolizo as atenções dos professores para mim porque respondo e faço perguntas e voluntario-me imenso para ajudar com técnicas e manobras. Sou naturalmente participativa, até demais. Não o faço para chamar a atenção (ou talvez faça, nem sei bem), ainda que possa parecer. Faço-o quando estou genuinamente interessada. Mas sei que é um defeito, para alguns. 

Pelo contrário, há certas coisas no dia a dia em que sei claramente que sou uma attention seeker e é um dos meus maiores defeitos. Estou constantemente à espera de receber palmadinhas nas costas por atos que tenho noção que foram bons. E passo a vida a pregar que o maior reconhecimento é o interior quando eu própria fujo a essa dica tantas e tantas vezes.

Em discussões com colegas, sou demasiado nariz empinado. Acho, na maioria das vezes, que tenho razão. Mas também gosto de estar errada porque isso significa que tenho que aprender alguma coisa. Gosto de ver nas dificuldades, oportunidades. Sou demasiado masculina, mais do que a maioria dos rapazes da minha idade. Acho que eles têm algum medo de mim por isso. Tenho uma atitude demasiado forte, empoderada, livre e desinibida. Não tenho nada de princesa e tudo de cavaleiro andante. Parece parvo mas acho que estou solteira há anos precisamente por isso. Não só, mas também. Acho que o principal fator prende-se com o facto dos moralismos exacerbados, que fazem com que procure uma pessoa quase perfeita que não existe.

Sou ligeiramente esquisita em refeições. Adoro sopa, sabe sempre bem. Mas não adoro leguminosas, enchidos, porco, comida com gordura e raramente me apetece fruta depois das refeições. 

Devia beber muito mais água, não bebo o suficiente e sinto que às vezes o meu corpo dá sinais da falta dela. Adoro coca cola zero e é raro o dia em que não bebo. Sei que um dia provavelmente vou ter um cancro graças a toda a cola zero que bebi. Anyway, é o meu drinkgasm da vida.

Não gosto tanto de voltar a casa como gosto de ir para a faculdade. Estou sempre cansada e parece que o caminho é muito maior. Mas normalmente como saio da faculdade com amigos, tenho companhia e vamos a conversar, sendo que o tempo passa rápido enquanto estamos juntos. Mas como sou a que mora mais longe, vou sempre pelo menos 5 minutos sozinha e volto a ouvir música. 

Gosto muito da minha casa, ainda assim. Tem a melhor vista de Coimbra e gosto do meu prédio, ainda que se ouça demasiado os vizinhos através das paredes mal isoladas. Gosto das minhas colegas de casa ainda que nem sempre o demonstre. Às vezes venho irritada com alguma coisa e não lhes respondo da melhor forma, sendo que elas são como a minha família de Coimbra. A Lili é uma verdadeira irmã que ganhei e estimo. Mas volta aos defeitos, Diana Patrícia!

Normalmente tenho muito mais coisas para fazer do que aquelas que realmente faço. Muitas vezes as pessoas abordam-me e perguntam-me como é que tenho tempo para tanta coisa. Eu digo que tenho uma boa gestão de tempo. Mas acho que é mentira! Não o manejo assim tão bem. Há sempre coisas que deixo por fazer, muitas vezes em detrimento de outras não tão urgentes que me apetecem fazer. Parece estranho mas sim. 

Previlegio muito o bem-estar e a felicidade. Faço muito mais coisas que me apetecem do que as que efetivamente devia fazer. 

Mas, às vezes, tenho preguiça para fazer exercício e devia fazer muito mais. Quando faço, sabe bem. Mas até fazer... Mas aprendi a aceitar o meu corpo natural, não tonificado e a gostar dele assim. E isso faz com que tenha ainda mais preguiça.

Previlegio muito o conhecimento. Tenho sede dele e é o que me motiva nesta minha existência. Tento ler outra vez ao fim do dia ou à noite, antes de dormir. Gosto de me sentir mais culta. Gosto de me sentir poderosa intelectualmente. Sofro imenso quando põem isso em causa e é provavelmente a minha maior insegurança.

Faço muitas piadolas de pai durante o dia. Sou muito irónica e às vezes até irritante. Meto-me muito com as pessoas e gosto de chamar a atenção, novamente. Espero que com a idade, passe.

Sou demasiado sonhadora e romântica e passo a vida a sofrer por idealizar demasiado. Sou ingénua e confio demasiado nas pessoas que não conheço, sendo que este último facto já me trouxe alguns dissabores. É algo que efetivamente tenho que mudar. Passar a vida a sonhar acordada tem o seu q.b. de bom. Mas ao mesmo tempo, parece sempre que vivo numa realidade paralela que me faz ser muito mais feliz enquanto que fico triste sempre que coloco os pés bem assentes na terra e dou de caras com a maldade, com a ganância, com a inveja, a ira ou tantos outros pecados capitais que não fazem parte do meu mundo idílico. Romantizo a realidade a níveis extremos e saio frequentemente magoada. Alimento muitas ilusões.

Sou demasiado optimista, às vezes não caio na real. Acho sempre que tudo vai correr bem e fico exageradamente triste quando não corre. Sou também demasiado sensível e é algo que a maioria desconhece, tendo em conta que uso a capa de miúda forte e empoderada para me defender.

Sou exageradamente preocupada com os outros e generosa. Muitas vezes vivo demasiado os problemas dos outros e canso-me a tentar resolvê-los. Essa minha faceta de salvadora da humanidade não está presente todos os dias mas já me trouxe demasiadas amarguras sempre que percebo que não consigo mudar o mundo tanto quanto queria. Mas não desisto porque pouco a pouco e por muito que não mude grande coisa, vou mudando algo à minha escala. E se todos fizermos o mesmo, juntos conseguimos atingir objetivos maiores.

Adoro viajar e corro imensos riscos quando viajo sozinha. Mas só assim me sinto verdadeiramente livre e dona de mim, num ambiente diferente em que tenho que sair da minha zona de conforto, conhecer pessoas e explorar coisas novas. Faz-me muito feliz e é algo que também motiva a minha existência.

Sou demasiado open mind e para algumas pessoas isso é um defeito. Consigo dar a minha opinião sobre qualquer assunto sem tabús. Também sou demasiado frontal. Muitas vezes não tenho filtros e acabo por perder precisamente porque este mundo não é dominado pelos frontais, é dominado pelos calculistas. E eu sou muito pouco.

Mas bem... Acho que o sono entretanto voltou e vou aproveitar a deixa.

Não me odeiem depois deste manifesto anti-Diana. Mas acho que é quando passamos a conhecer-nos completamente, inclusivamente os nossos pontos fracos, que temos oportunidade de ter auto-conhecimento e aceitação. É, no fundo, um processo de crescimento. 

 

 

 

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