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19
Abr19

#24 - pobreza e violência no Brasil

por @dianacarvalhopereira

     Tapada por 2 mantas, no quentinho do meu sofá, de lareira acesa num dia frio e chuvoso de inverno, recebo um vídeo através do whatsapp que muda completamente o meu estado de espírito de lykke.

 

     Desenganem-se os que imediatamente suspeitaram que recebi um vídeo de uma qualquer praia paradisíaca, em pleno verão no hemisfério sul, com turistas bronzeados a beber água de cocô. Antes fosse. Quando fantasiamos com umas férias de sonho no Brasil ou com o Carnaval incrível do Rio, esquecemo-nos que esse país, por muito que o consideremos como irmão, pela língua e a cultura, vive a anos-luz de Portugal e tinha, em 2017, mais de 209 milhões de habitantes (nós continuamos pouco mais de 10 milhões e com tendência a (com o efeito da pirâmide etária invertida e da completa crise demografica) ser ainda menos.

 

     Recebi um vídeo chocante que chega diretamente da internet depois de um qualquer delinquente o ter lá publicado. Não bastou gravar um homicídio violento e sem piedade como foi capaz de lança-lo publicamente online para que milhões de pessoas o vejam e sofram tanto ou mais do que eu.

 

     Eu sofro com este tipo de situações. Sofro mesmo. Sofro quando penso que nem toda a gente tem a mesma sorte que eu tenho: vivo numa cidade relativamente pacífica, estudo noutra ainda mais pacífica e acima de tudo sou natural de um país onde nunca tive medo de estar na rua e de sair à rua. Sei que mesmo em Portugal, nem todos tem a mesma sorte que eu sendo que muita gente já foi vítima de furtos violentos ou outro tipo de crimes mas na generalidade, tendo a achar que vivemos num país seguro.

 

     Em Portugal existiram 341 950 crimes registados pela polícia em 2017, o que dá nos dá cerca de 937 crimes por dia. O número de homicídios tem vindo a diminuir substancialmente: passou de 1801, em 1993, para 448 casos no ano de 2016.

 

     Não consigo compreender como é que 448 pessoas em 2016 foram mortas por outrem. Até porque também não consigo enfender como é que alguém se acha tão suficientemente melhor e mais importante que outra pessoa para achar que pode decidir quando é que ela deve deixar de existir. Como é que alguém se julga acima dos outros ao ponto de destruir a vida deles e a dos que os rodeiam (porque tenho a certeza que os familiares da vítimas de homicídios nunca mais olharão para a vida e para o mundo da mesma maneira). É demasiado ingrato e injusto para eu tentar perceber.

 

     Em Portugal ouvem-se inúmeras histórias de filhas que matam as mães por heranças, mulheres que matam maridos por seguros de vida, casos de violência doméstica por ciumes, consumo de drogas e alcoolismo, entre outros. Em todos eles, por muito hediondos que sejam os crimes, conseguimos pelo menos perceber o que motivou o homicida (o que, não justificando o ato, lhe atribui mais humanidade).


      No Brasil isso não acontece. As pessoas matam pelo prazer de matar? As pessoas sentem-se poderosas a matar? As pessoas matam sem consciência do que fazem, de certeza. As pessoas são capazes de discriminar tanto outras raças ou profissões que se julgam superiores ao ponto de as matarem? Onde é que eu já ouvi isto? Talvez durante uma qualquer guerra mundial em que o Brasil esteve parcialmente envolvido. Isto levanta-me outra questão: será que o Brasil não vive atualmente uma terceira guerra mundial contra ele próprio?

 

     Em 2016, pela primeira vez na história, o número de homicídios no Brasil superou a casa dos 60 mil em um ano. De acordo com o Atlas da Violência de 2018, produzido pelo Instituto de Pesquisa Económica Aplicada (Ipea) e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), o número de 62.517 assassinatos cometidos no país em 2016 coloca o Brasil num patamar 30 vezes maior do que o da Europa. Só na última década, 553 mil brasileiros perderam a vida por morte violenta. Ou seja, um total de 153 mortes por dia.

     Recapitulando, morreram 448 pessoas em Portugal por homicídios em 2016. No Brasil, foram 62 517. Foram 140 vezes mais homicídios que em Portugal sendo que a população é apenas cerca de 20x maior. Qual é a proporcionalidade em tudo isto?

 

      No tal vídeo que recebi, uma mulher é esfaqueada até à morte e quase sem tempo de gritar, por dois individuos que inclusivamente a decapitam enquanto lhe chamam de puta. Mostram a cabeça arrancada para a câmara enquanto um diz para o outro para não parar de filmar. É horrível. Grotesco. Horrendo. O corpo decapitado fica no meio de uma mata.

 

       A tal mulher vestia apenas uns calções e um crop top. As pernas e a barriga destapadas não mostram mais que uma qualquer jovem em pleno verão. Por muito que se tratasse de uma prostituta (que não faço ideia se era ou não o caso) que vivesse por conta da venda do corpo, que legitimidade têm estes homens de lhe comprarem o corpo roubando-lhe a vida?

 

       Neste chuvoso sábado à tarde num país seguro, eu poderia não ter visto o video e poderia continuar feliz e contente a ver filmes à lareira. Mas não consegui ficar indiferente a umas imagens que com certeza ainda demorarão uns dias a sair dos meus pensamentos. Nós podemos estar a milhares quilómetros de distância. Ainda assim, não consigo não expressar toda a fúria que sinto.

 

       Tenho o meu livro de Harari à espera. Mas neste momento não me acredito em homo deus nem em sapiens coisa nenhuma, criação brilhante da humanidade. Neste momento acredito piamente que existem humanos que deveriam ser internados em clinicas psiquiátricas para aprenderem a conviver como tal, em sociedade. Porque ao contrário deles, não me acho superior para lhes desejar a morte. Acho-me apenas no direito de viver num mundo em que não agimos como animais nem se matam pessoas de um modo tão macabro enquanto se filma e se publica na internet de seguida.

 

      Tenho apenas dito.


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