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15
Set18

13# as taras da Di

por @dianacarvalhopereira

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Porto 20h30

 

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Olhando para as nuvens a partir do meu avião, num fim da tarde em que as cores do céu oscilam entre o azul marinho e o laranja suave, relembro-me do conceito de paraíso. Será que é para aqui que vamos no final de tudo?
Vamos ser felizes a pular nestas nuvens fofas e brancas enquanto tocadores de harpa nos deliciam com a sua música? Ou será que as nuvens não passam de vapor de água condensado, tal e qual como indica a ciência?

Sonhar é mais divertido do que ser racional, por muito que o ideal seja combinar as duas coisas. Ser demasiado racional faz-nos levar a vida de um modo demasiado sério e calculista. Ser demasiado sonhador faz-nos ter diversas desilusões por vivermos num mundo paralelo no qual os outros não vivem. Nesse meu mundo dos sonhos, por exemplo, não há maldade, não há malícia. Há felicidade, pessoas cordiais e generosas e todos os nossos objetivos concretizados sem passar por cima de ninguém. Há amor, há carinho, há os tais tocadores de harpa, cenários belissimos e idílicos e ainda mais nuvens brancas e fofas.

Lady Bird, és mesmo tu?

Na verdade identifiquei-me tanto com as personagens desse filme que tenho pena de não ter escrito sobre ele mal o acabei de ver. Mas penso que embora já não acuse a emoção do momento, ainda vou a tempo.

Uma comédia dramática nomeada em diversas categorias para Óscares e globos de Ouro na qual a tipologia do filme não engana: fartei-me de rir mas também me vieram as lágrimas aos olhos várias vezes.

Sem querer contar a história toda, vou referir-me apenas às partes em que me identifico com as várias personagens, tal e qual como se fossem as minhas taras  (as taras da Di):

- a mãe: agarrada, extremamente poupada, podia ser ela a escrever este blogue. Sempre que a ouvia falar repetia para mim "pobre fazendo pobrice". E chateia a filha por ela usar uma toalha na cabeça outra no corpo: uma chega para tudo e é menos roupa para a máquina. A água e a energia custam dinheiro... Irrita-se pela filha deixar a roupa a monte no quarto: afinal, gastar demasiado a roupa implica ter que comprar nova!
É provavelmente a visão mais próxima de mim no futuro. E ainda por cima trabalha na área da saúde, tal como vou trabalhar. Também é doce, generosa e sentimental. Tem é dificuldades em mostrar-se. Escreve cartas de amor à filha, em vez de se declarar. Faço o mesmo com as pessoas que gosto, muito embora goste de as mimar e por norma partilhe com elas. É, tal como eu, um ananás: dura por fora, doce por dentro.

- a filha: uma sonhadora nata, tal e qual a Di. Uma romântica incurável, tal e qual a Di. É a representação do que eu sou agora: inocente, divertida, teimosa, fiel, doida, jovem, pura. Óbvio que tem defeitos (e eu ainda tenho mais) mas, em todo o caso, adoro-a. Adoro a atriz, adoro a beleza simples e inocente dela e adoro o papel em si.
Adoro a relação dela com o primeiro amor, que se revelou gay (nisto não somos iguais, penso!). Adoro o início da relação dela com o segundo amor, desprezo o fim. Adoro que continue a acreditar no amor mesmo quando as coisas não correram bem antes...

- o primeiro amor: é querido, afável, dedicado, educado e romântico. Sou eu nos meus dias bons. Gostava que um dia me dedicassem uma estrela como ele dedicou à filha.
Mas é gay e sofre com isso no seio da sua família hiper católica - aí já não tem nada a ver comigo mas gosto da sua irreverência perante o resto porque também eu sou uma ativista da vida insatisfeita.

- o segundo amor: passa a vida a ler e desligado da vida, é quase que a minha versão masculina se eu fosse ainda mais distraída e desligada do que já sou. Adoro o look dele e o facto de ser tão intelectual. Adoro que seja um nerd que passa a vida a ler mas que se dá bem com a malta mais popular do liceu. É quase que a minha representação no ensino secundário: uma das melhores alunas da escola embora fizesse mil e uma coisas, incluindo estar na direção da associação de estudantes e ser amiga dos grupos mais sociais da escola.

- o pai: enfrenta uma depressão por estar desempregado mas continua a dar o seu máximo para fazer a filha e o resto da família feliz: lembra-me o amor forte que também eu tenho pela minha pequena família, por mais que as circunstâncias da vida não sejam as melhores;

- a amiga gordinha e a relação de amizade delas: péssima relação com a comida, tal e qual a Di. Muito sentimental, acredita em amizades profundas que são mais importantes do que rapazes e relações (também eu!). A relação dela com a protagonista lembra-me a minha relação com algumas das minhas melhores amigas: são tão cúmplices que parecem irmãs, chateiam-se e depois resolvem-se sem ressentimentos.

- a relação da filha com a mãe: parece que não têm nada a ver uma com a outra, passam a vida a discutir. Em todo o caso, adoram-se a níveis extremos. Lembra-me da relação que mantenho com a minha mãe: distante mas ao mesmo tempo tão próxima. Porque sei que fez e faz um grande esforço para que nunca me falte nada, independentemente do resto. Porque sei que é incrivelmente boa pessoa, trabalhadora e tem muito orgulho em mim, embora não o diga todos os dias.

- a relação da filha com o pai: linda de se ver. E sim, não tenho pai mas tenho tia. Tenho uma tia linda que é mais do que um pai porque faz de pai e segunda mãe, de tia, de amiga, de ajuda em toda e qualquer ocasião. Sou muito grata por tê-la na minha vida, por me dar tanto mimo e tanto carinho para além de tanto que já me dá. Por ser ela que está lá em todas as ocasiões e por ser um exemplo de ser humano e trabalhadora em quem penso em todas as ocasiões para me inspirar. A super heroína da minha família não precisa de uma capa para ser super hiper mega incrível.

- a relação da filha com o irmão: não me identifiquei com o irmão tal como não me identifico muito com a minha irmã (talvez ela depois de ler isto concorde que eles até são parecidos!) mas identifiquei-me com a relação que ele mantém com a irmã. Passam a vida a discutir mas não se trocavam. Tal e qual eu e a Joana Sofia.

E pronto, penso que é tudo. Espero ter passado as mensagens principais: adorei o filme, as personagens, o enredo. Parece que foi escrito para mim, para me divertir e emocionar como há tanto não acontecia no cinema. E amo, mais do que tudo o resto, a minha família, que sou tão felizarda por ter!

Para ver filmes mais barato, basta ser yorn e ir à UCI às terça-feiras ou ser NOS/WTF e ir a qualquer dia da semana a um cinema NOS. Pagam pouco e têm uma oportunidade de expansão cultural e de horizontes.

Para ter uma família incrível, já não é tão fácil. É preciso ter sorte e cultivar o amor todos os dias. É preciso ter uma Sofia que, sem saber, nos fez ser tripeiras fortes e lutadoras, mesmo quando as coisas não correm bem. Tenho saudades dela todos os dias. E a ela dedico este texto que tanto gostava de lhe ler. Já fez 3 anos que partiu e eu continuo a pensar nela como se ainda cá estivesse. Foi e será sempre a minha baby Vó, já que o Alzheimer lhe tirou muita lucidez. Costumo dizer que durante muitos anos fomos quase irmãs porque eu era uma criança e ela outra, fruto da doença. (Amei-te e continuo a amar-te e a saber que olhas por mim todos os dias!)

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Madrid, 21h30

 

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