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05
Fev18

2# HOSTEL BARATO (consome por dentro)

por @dianacarvalhopereira

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     [ Vou deixar aqui um texto com um ano e meio que demonstra perfeitamente o quão #pobrefazendopobrice me está nas veias desde sempre.

 

 

     Na altura partilhei-o num post do Facebook e recebi imensos feedbacks positivos de pobertanas como eu que acharam piada à história.

 

 

     Antes de receber mensagens a dizer que se viajo é porque sou rica, digo já que facto de eu viajar não quer dizer que deixe de ser pobre. Na verdade fiz essa viagem com dinheiro junto e algum emprestado que depois fui pagando a um familiar. Nada é impossível e a malta consegue tudo, basta querer (e sujeitar-se a ficar em hosteis como esse!).

 

Aqui vai, entre  [ *] ficam as minhas anotações de agora. ]

 

 

 

10/09/2016 - Roterdão

 

     Hoje venho por este meio escrever uma composição (do tipo escola primária) sobre este encantador caso bicudo, incontornavelmente cheio de vértices e arestas mal moldadas.


     O hostel barato começa bem no pequeno depósito que tens que fornecer e sabe ainda melhor quando lá chegas, no check in: pagas muito pouco. E o típico português que está habituado a tomar o pequeno almoço no café da esquina mesmo que receba o rendimento mínimo - e nem dinheiro tenha para ter outras refeições em condições - gastando sempre pouco no que é realmente importante, fica logo radiante por já poder beber mais 2 ou 3 cafés no tasco em vez de dormir em condições.


     Pois é, eis o grande calcanhar de aquiles do hostel barato: serve para tudo menos para dormir.


     Desenvolvendo o tema, tudo começa quando entras no teu enorme quarto partilhado e reparas que as camas nem lençóis têm, é tudo pago à parte. Pensas para ti: afinal não vai ficar assim tão barato. Quando os vais pedir, o recepcionista diz que têm pouco stock e já acabaram. Porreiro pah, o que eu mais queria era dormir colada a um colchão onde roçam - e deixem-me pensar... - no máximo, 365 viajantes mal lavados num ano. Só espero não apanhar sarna numa noite. Não sou religiosa mas hoje não adormeço sem rezar uma avé maria e um pai nosso (btw, não adormeço mesmo).


     Posto isto, tentas improvisar uma pobre almofada com a mochila - que na verdade se torna horrível se fores daquelas pessoas super esquisitas com almofadas, como eu, e que têm medo de dormir junto a aparelhos eletrónicos - e um casaco como pequeno cobertor.


     Imagina ainda que tens que dormir com uma luz de presença daquelas placas que indicam saída de emergência, que não desligam, por cima da tua cama. É prático quando precisas de encontrar alguma coisa. É péssimo quando não consegues dormir por outros motivos mas, para agravar, ainda tens uma estrela artificial a iluminar a tua noite que preferias menos estrelada.


     E porquê que não consegues dormir? Antes fosse porque estás a pensar na vida, na morte, no jeitoso que passou por ti hoje na passadeira e que julgaste amor da tua vida ou no Quim Zé que deixaste na terrinha à tua espera. Na verdade é porque partilhas um quarto com mais 44 bananas de todas e mais inimagináveis nacionalidades que têm por hábito ter muitos problemas nas fossas nasais, septo nasal, conchas e todo o restante aparelho respiratório - e quiça apneia de sono. No meu caso, estou precisamente há 3 horas a tentar adormecer e está a revelar-se uma tarefa árdua por este mesmo motivo.

     Concretizando, o meu vizinho do lado esquerdo (e o vizinho dele ainda pior é) teima em ressonar que nem porco. E não é que eu não esteja cansada. Estou, e bastante! Andar mais de 30km por dia a conhecer cidades europeias, embora bastante produtivo e recompensador, desgasta corpo e mente. Mas parece que estou num concerto de instrumentos de sopro tocado por porcos, de maneira que dormir se torna impossível.
E é que nem coordenam o barulho: um ressona primeiro, outro a seguir. Talvez seja assim mais prazeroso para os dois: cada um pode dominar e chatear em alturas diferentes da minha tentativa de sono frustrada, porque há sempre um que faz barulho a seguir e a torna mais uma vez, só uma tentativa.
     Já vos falei do que também não se faz num hostel barato para além de dormir? Tomar banho sem uma série gag reflex incontroláveis. O ralo está sempre com cabelos de 3 meses que se juntam a partículas que por mais que tente, não consigo decrever o que são. Mas não agradáveis, isso posso garantir. De todo. Os showers são mistos, tal como os quartos. Não és livre de ver o órgão sexual de algum gajo confiante com o seu corpitcho ou o farfalhudo e peludo monte púbico de alguma menina que prefira tudo ao natural. Nada bom para os mais reservados ou púdicos.
     No quarto também não és livre de ver o teu vizinho do lado (mais uma vez, do esquerdo, isto é só qualidades) com a mão dentro dos calções, talvez a proteger o presente do senhor dos outros 44 desconhecidos que o querem possuir. Nesta altura do campeonato já pensas: porquê que não gastei mais 20€ por dia noutro hostel?

 

[Resposta: porque és pobre Diana]


      É mesmo um caso bicudo este. O vizinho do lado até é giro. E isto dá que pensar nas atrações físicas que depois não dão em nada quando conheces estes dirty little secrets do boy que julgavas um príncipe. A vida real é ingrata, eu sei, e ninguém é perfeito, já dizia o outro.


     Já vos contei ainda que o hostel barato não possui tomadas no quarto? Pois é, na verdade para carregares o telemóvel, o tablet ou a câmara - coisas ditas elementares com bateria durante umas férias - tens que te dirigir à sala de convívio e esperar na fila para 4 extensões de 3 entradas a partilhar com mais de 300 marmanjos que cá dormem no hostel. É realmente uma luta produtiva. Sentes que subiste ao Everest quando tens direito à maldita extensão. Mas depois, qual final feliz? Descobres que não te deixam carregar todos os aparelhos ao mesmo tempo, tem que ser um de cada vez por causa dos restantes que esperam - o que por um lado faz sentido, respeitando os outros, por outro é cansativo uma vez que eu também não tenho culpa que hajam poucas tomadas. Calculo mais de 6h restantes para carga total. Desisto do tablet e da câmara. Existem ainda os inteligentes com adaptadores para várias entradas USB. Escusado será dizer que provocam curtos circuitos por sobrecarga de voltagem. Isto prolonga ainda mais a fila e diminui ainda mais - como se fosse possível - a minha paciência.
 

     Bem, o hostel barato tem muito mais que se lhe diga, acreditem! Mas neste momento atingi o número máximo de caracteres possíveis para um memorando no meu humilde telemóvel e vou tentar ser (ferozmente) embalada pela melodia dos habilidosos ressonadores, agora que tenho uma pitada a mais de sono e desgaste - e ainda mais 30 ou 40km a percorrer a pé no dia de amanhã. 

 

      Espero ter transmitido a moral da história a quem tiver paciência de ler isto até ao fim: paguem mais um pouco e durmam em condições. Tenho dito ❤

 

[Isto se era muito bonito se não fosses uma pobre fazendo pobrices, Diana Patrícia]

 

Ps. Também há quem sofra de bastante flatulência enquanto dorme mas achei por bem defender os mais sensíveis e não desenvolver este vértice bicudo. O que vale é que o quarto ainda é grande e o cheiro se espalha!


Ps2. Ainda estou a pensar se traduzo ou não esta crítica e a coloco no HostelWorld. Sinto pena dos pobres empregados que cá trabalham e que vão perder hóspedes de maneira que ainda vou pensar duas vezes se o melhor não será mesmo melhorar o meu inglês a falar com eles pessoalmente (daqui a umas horas) e não ficar com remorsos. Talvez seja eu demasiado exigente!



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