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06
Jan19

#18 pobreza temporal e pobreza dos outros

por @dianacarvalhopereira

         ... O tempo pergunta ao tempo, quanto tempo o tempo tem. O tempo responde ao tempo que o tempo tem tanto tempo, quanto tempo o tempo tem ...

 

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          Será a pobreza em tempo um dos principais obstáculos da nossa geração? Ou será que simplesmente não o sabemos gerir em condições?

 

          Lembro-me daquele esquema do tempo, dinheiro e energia, comparando as diferentes fases da vida nestes três aspetos. Por vezes parece mesmo que não temos nenhum deles. Passamos a vida a correr e consequentemente, cansados e sem energia para acordar de manhã com vitalidade ou vontade de mover montanhas. O dinheiro não chega, principalmente se ainda forem estudantes a tempo inteiro e tiverem que gerir uma pequena mesada durante o mês inteiro. O tempo não chega para decorar 350 matérias diferentes - no meu caso, especialidades médicas, com todas as suas patologias e particularidades - dedicando-nos totalmente mas mantendo os nossos hobbies e passando tempo de qualidade com as pessoas que nos dizem algo.

 

          Será que não chega? Ou não lutamos e fazemos para que chegue?

 

          Vejo idosos sozinhos no café, num qualquer domingo bonito de inverno durante a tarde, enquanto escrevo, leio e estudo a ver o mar e o rio. Onde andarão os filhos e os netos? Os amigos já terão falecido? Qualquer dia, chega a vez deles. Nessa altura, provavelmente os tais filhos e os tais netos vão lamentar por não terem passado mais tempo de qualidade com os seus entes queridos. Vão desejar ter estado presentes no tal café, num bonito domingo de inverno em que provavelmente estiveram metidos no sofá a dormir ou a ver um qualquer programa da tarde sem graça.

 

          As pessoas deixaram de dar valor aos outros? Por vezes acho que sim. Não há esforço pelo próximo, não há vontade de ouvir o outro e aprender com ele. Na grande maioria dos casos, as pessoas vivem concentradas na sua vida, nos seus objetivos pessoais e ambições, esquecendo-se muitas vezes que é por haver um outro que efetivamente conseguimos ser felizes. 

 

          O homem é um ser naturalmente social. Empatiza e sente necessidade de afeto e convivência. Muitas das doenças mentais começam e desenvolvem-se na falta do outro. E eu acredito que embora só valorizemos o outro quando nos valorizamos antes a nós próprios, conseguimos progredir tanto de mãos dadas com o mundo e com os que nos rodeiam...

 

          As personalidades mais crueis da história da humanidade pecaram por acharem que efetivamente eram superiores aos outros e que tinham poder e legitimidade para os maltratar, torturar e aniquilar. Não viam o poder do outro, viam poder no desaparecer do outro e domina-lo. Não creio que fossem felizes. Não creio sequer que retirassem prazer nessas andanças, a não ser que fossem psicopatas. 

 

         Cresces e aprendes o quão feliz consegues ser a ajudar os outros. Cresces e aprendes o quão te fazem falta os outros.

          Cresces e aprendes que mesmo que sejas muito diferente e intelectualmente dotado, não és superior a ninguém. 

          Cresces e aprendes que não és mais especial que ninguém e embora te moldes para melhorar e mudar tudo aquilo que está mal em ti, ninguém te diz que os outros também não estão no mesmo processo de amadurecimento e aprimoramento pessoal.

          E aquele rapazinho que outrora parecia burro e frágil amanhã pode ser um homem de negócios de sucesso que emprega centenas de pessoas.

          E aquela menina que era má e batia nos meninos mais frágeis, pode hoje estar a ajudar quem mais precisa e a abdicar do seu tempo em prol dos outros.

 

          Quem me conhece sabe que não gosto de julgamentos. Quem me conhece sabe que gosto de mudar de opinião acerca de tudo. Gosto de estar enganada. Porque isso prova que as pessoas mudam e que efetivamente podemos ter esperança.

 

          Ao contrário de tantos outros, que correm contra ao tempo e não se põe em primeiro lugar, eu aprendi a colocar-me (e à dita cuja da felicidade) no centro do meu mundo. Não de uma maneira egocêntrica mas de maneira a que esteja tão realizada que possa ter também uma influência positiva na vida das pessoas.

 

           Eu deixei de estudar horas a fio seguidas. Estudo apenas quando a vontade de aprender está la e continuo apenas enquanto me sinto confortável para tal. Paro para ir ter com os meus amigos. Para fazer yoga. Para meditar. Para escrever. Para acabar de ler o capítulo do livro que estou a ler. Para sair à noite e beber uns copos valentes, já que estou na idade para tal. Para me apaixonar. Para passar 6 horas seguidas simplesmente a contemplar alguém que me interessa. Para dormir 10 horas seguidas. Para cozinhar. Para passear. Para andar de patins. Para ver o mar. Para escrever moções políticas que eventualmente vou apresentar um dia. Para ler o jornal. Ou simplesmente parar para descansar e não fazer nada. Para estar no sofá a olhar para o teto. Para estar novamente com os meus amigos na galhofa ou a conversar e até para fazer novos. Para fazer tudo o que me faz feliz sem remorsos. Para me colocar à frente de qualquer estudo ou trabalho. 

 

            E é esse o meu conselho: coloquem a vossa felicidade no centro do vosso mundo. É desse modo que conseguirão ser bem sucedidos, principalmente junto dos vossos amigos e família. É desse modo que todos vão olhar para vós como uma boa companhia e, de alguma maneira, um exemplo.

 

          Arranjem tempo para as pessoas que vos fazem feliz. Arranjem tempo entre trabalhos, viagens e preocupações. Porque no final de contas, são essas pessoas que eventualmente vão estar lá a ajudar-vos a dar a conhecida "volta por cima" na falta de trabalho, de viagens ou no excesso de preocupações e frustrações.

 

          E arranjem energia onde ela parece não existir. Pensem na quantidade exorbitante de idosos que já não têm força para andar ou para as tarefas mais básicas do dia-a-dia por motivos de doença ou de incapacidades várias. E lembra-te que tens vinte e poucos, trinta e poucos, quarenta e poucos, quiça mais, mas que podes e deves continuar a exercitar-te, a consumir vitamina D gratuita e a sair da cama com um sorriso e vontade de dominar o mundo.  

 

          O dinheiro é mais difícil... Mas se já me conhecem, sabem que o coloco em último lugar na tabela das prioridades. Sei que eventualmente um dia, vou ter dinheiro suficiente para poder ajudar os outros e ter o meu iate para viajar pelo mundo. Entretanto, contento-me a caçar promoções do pingo doce para comer, da ryanair para viajar e a ir ao mc comer um cheese sempre que tenho fome às 4 da manhã. Porque também já aprendi há muito tempo que as melhores coisas da vida não custam dinheiro. 

 

          E continuo feliz, pobre fazendo pobrice.



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