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30
Mai18

7# morte de pobre vs. morte de rico

por @dianacarvalhopereira

     Há muito que descobri que sou uma mulher do mundo. Portugal é um país lindo e especial mas pequeno demais (para mim) em certos aspetos.

 

     Ontem chumbaram a despenalização da eutanásia em Portugal.

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     Senti imensa pena, talvez até vergonha, porque ainda há dias, na Irlanda, gabei o meu país junto de estrangeiros porque despenalizamos o aborto há 11 anos atrás, sendo que na Irlanda estão apenas agora com um referendo sobre o assunto, sentindo orgulho, nesse momento, em fazer parte de um país tão evoluído em certas questões. 

 

     Agora tudo voltou à estaca 0, quando impossibilitamos pessoas com doenças terminais ou incapacitantes de decidir acerca da sua hora para morrer. 

 

     Não gosto de parecer fundamentalista mas estudar medicina e lidar com a dor , bem como paralelamente seguir alguns ideais do budismo, deu-me uma visão bastante peculiar acerca deste tema.

 

      Como faço yoga e meditação baseadas em fundamentos do Buda, tendo a acreditar que é possível reencarnarmos noutras pessoas, numa outra vida. Acredito que a morte não é o fim de mais nada a não ser do sofrimento. Assim sendo, de que vale não darem o direito à morte assistida a quem não resta mais nada a não ser sofrimento?

 

     Penso que quase todos os deputados mudariam a sua opinião se em algum dia das suas vidas tivessem que lidar de perto com um doente terminal. Penso ainda que é facto que quase todos concordam que a inquisição ou a escravidão nas colónias mancham a história de Portugal.

 

   Para mim, não garantir a eutanásia em alguns casos é quase como que mais uma mancha na história. Porque na verdade, é quase como tortura, para tantas pessoas que sofrem diariamente e que apenas pretendiam ir, em paz, antes das piores mazelas de determinadas patologias chegarem e arrancarem a pouca força que vão tentando manter. 

 

    Todas as doenças terminais têm, como consequência, mais tarde ou mais cedo, como indica o nome, o término. Mas em algumas, ingratas, este demora a chegar. Enquanto não chega, traz consequências iniciais, não tão definitivas, mas dolorosas. Traz dores, mazelas, perda de força e auto-estima. Traz repercussões também para a família e amigos, que sofrem porventura mais ainda, vendo aquela pessoa naquele estado debilitante, sem poderem fazer nada para ajudar.

 

     Por outro lado, em doenças incapacitantes, não mortais, será justo obrigarmos alguém que outrora foi saudável a viver dependente de outros toda a vida? A não ter o mínimo de qualidade de vida comparado à que já tiveram mas, mesmo assim, a ter que viver com isso? Já dizia Buda que nascimento é sofrimento, vida é sofrimento, miséria é sofrimento e morte é sofrimento mas, se porventura há opções, porque continuamos a deixar passar ao lado este assunto tão importante?

 

   Mas agora vem o facto principal:

     Qualquer rico pode morrer condignamente, quando bem lhe "passa pela cabeça", mesmo que não tenha uma doença terminal ou incapacidante. Compra um bilhete de avião para a Suíça ou para a Bélgica e tem suicídio assistido numa qualquer clínica ilegal, se tiver dinheiro para o fazer. 

     Qualquer pessoa com o minimo de posses encomenda a injeção letal online e mata-se em casa, sem chatisses, habilitando-se ainda a ser burlado porque metade dessas injeções que vendem online não são nada mais do que uma bela dose de benzodiazepinas que só mata quem já está mesmo fraco para não aguentar a overdose e dá vários efeitos colaterais bem piores a quem sobrevive.

 

     O pobre não. O pobre, já não basta ser pobre, tem que morrer só quando o destino quer. Ou quando chega a tal situação debilitante que desiste e suicida-se. 

 

    Para mim, não legalizar a eutanásia é o mesmo que continuar a assentir com ânimo leve que tantos suicídios aconteçam todos os dias.

 

     Para mim, não legalizar a eutanásia é continuar a deixar que a questão sócio-económica decida quem pode ou não morrer condignamente em Portugal, quando quer. 

 

    Para mim, ontem Portugal falhou.

 

     Volto a dizer que não sou fundamentalista mas tenho  alguma vergonha de viver num país que tome esta posição acerca desta questão, principalmente quando estava mesmo esperançosa que, com uma geringonça de esquerda, ontem se fizesse história...

 

     Espero que em breve se volte a discutir esta questão, com outro desfecho. Espero que o povo, (que continua a dever ser quem mais ordena) não se deixe ficar acomodado neste assunto. 

 

     Que não deixemos morrer, em "águas de bacalhau" este assunto,  já que os políticos continuam sem deixar morrer quem, por direito e (a meu ver) obrigação moral, merece.

 



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