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26
Out20

54# - decifrar o amor

por @dianacarvalhopereira

Lunáticos,

 

Sinto-me sempre tentada a partilhar convosco as grandes alterações estruturais da minha vida, particularmente porque uso este Blogue como uma espécie de diário público que gosto de reler sempre que posso, para me lembrar de como pensava e escrevia naquela altura.

 

Estou apaixonada e não tenho medo de assumir. Estou aliás, perdidamente apaixonada pelo objeto do meu amor, que há dois dias decidiu pedir-me em namoro com a pergunta "podemos passar a contrato efetivo? <3" escrita num marcador inserido dentro de um livro que ele sabia que eu queria e me ofereceu. 

 

Mas mais do que apaixonada, sinto verdadeiramente que estou, pela primeira vez, a decifrar o amor. Amor esse que eu julgava que já tinha sentido antes mas que em boa verdade, nunca se assemelhou ao que sinto agora. E a minha justificação lógica para tal reflexão é o facto de, no passado, não me amar a mim mesma num primeiro passo que é um pré-requisito mínimo para conseguir amar outrem. O desenvolvimento de auto-estima e auto-conhecimento tem sido um investimento na minha vida desde que percebi a quota parte de culpa que a lacuna nesses campos teve na minha depressão. E assim sendo, decidi, de uma forma sensata, não envolver-me efetivamente e com um vínculo forte com alguém enquanto que esses passos não fossem um dado adquirido ou perto disso.

 

A pandemia trouxe muitas coisas menos boas mas também meia dúzia de aspetos muito bons. Um deles foi ter tempo para parar, para refletir, para ser grata por tudo o que alcancei e por tudo o que sou hoje. E para perceber ainda que já me amo o suficiente para poder extravasar esse amor no complemento que é o outro. 

 

O Flávio apareceu por acaso. Não fiz planos. Nem lhe dei muita atenção no início, porque o conheci numa dating app. Sim, o preconceito existe em relação a elas, no meu caso em específico porque ele tinha no seu perfil que procurava relações casuais e em boa verdade eu não queria algo casual, queria fazer amigos, ter companhia, não fazer planos e se algum deles fizesse sentido, apaixonar-me. E foi o que aconteceu, embora só dois meses depois de começarmos a falar virtualmente, uma vez que estava sempre "de pé atrás com ele" e com essa informação do seu perfil. 

 

Aceitei sair com ele passado dois meses e soube no exato momento em que o vi que sentia uma energia diferente com ele. Nos primeiros dates disse-lhe várias vezes que ele me acalmava, quase como se fosse o meu ansiolítico natural. Apaixonei-me tão rápido que acho que o assustei, principalmente porque as pessoas hoje em dia têm medo de assumir coisas e de assumir o que sentem. No caso dele, ele teve dúvidas, que são e foram legitímas e que entretanto também me puseram a mim com dúvidas. Mas sem perceber muito bem como, num momento de crise e desorganização, era só com ele que eu queria estar, independentemente das dúvidas que existiam. Decidi continuar a "ver no que dava" mesmo que elas ainda existissem. E no entretanto, ele ganhou certezas e devolveu-me a mim também.

 

O Flávio é a pessoa mais humilde que eu conheço e foi assim que me encantou. O Flávio é, tal como eu, uma pessoa bem-sucedida que apesar de ser de uma família de classe média baixa, conseguiu ter sucesso em todos os projetos que se inseriu. O meu Flávio encantou-me de início assim, com a humildade e o facto de ser multiplamente talentoso: um engenheiro mecânico karateca, inclusivamente campeão e detentor de umas quantas medalhas, que adora viajar, tocar guitarra e rir das coisas mais parvas e mundanas. E também me encantou porque não há dia nenhum que não me ria dele ou com ele. Por termos sentidos de humor semelhantes, não conseguimos não ser idiotas juntos umas quantas vezes. Mas o que mais me impressiona é saber que temos esse mood e podemos estar aos mimos apaixonados passado cinco minutos e esse diferente mood continuar a ser óptimo e a fazer sentido.

O Flávio tem nome de bairro e eu gosto mais de lhe chamar Zé. Existem mais mil e um pormenores lindos dele e desta nossa história de amor que poderia partilhar convosco, mas são tão lindos quanto nossos e é algo que só a nós nos diz respeito.

Não obstante, com este texto quero dar esperanças a quem lê, esperanças essas que eu própria não tive durante anos. A esperança que o amor acontece quando menos esperamos e que um ano péssimo se pode tornar no melhor ano de todos com a ajuda de complementos como a realização pessoal e o amor.

Durante muito tempo acreditei que fui feita para ser bem-sucedida e independente e que não precisava de ninguém para ser feliz. Com ele estou a perceber que posso ser bem-sucedida enquanto lhe dou e recebo amor. E essa é verdadeiramente a melhor parte. Acredito que o amor, independentemente do formato, faz sentido e acrescenta sempre às nossas vidas. Acredito que o amor é algo que nos move e nos transcende. E por isso mesmo, estou feliz por estar a decifrar este amor com a ajuda do meu Flávio José. 

 

Não tenham medo de encontrar o vosso amor. Não o procurem absurdamente e percebam que ele simplesmente acontece, quando menos esperam. Mas acima de tudo, não tenham medo de admitir o que sentem. Eu não tive, mostrei-lhe que merecia a reciprocidade e não tardou muito a que ele estivesse de beicinho também, a pedir-me em namoro e a dizer-me coisas bonitas ao ouvido, a cozinhar para mim, a proteger-me e a cuidar de mim de uma forma que nunca ninguém cuidou. E é verdadeiramente emocionante percepcionar esta dose gigante de amor que ele veio acrescentar à minha vida em meia dúzia de semanas. Agora é fazer por dar e receber a mesma dose, neste contrato sem termo que é ser namorada dele.

 

Hoje ele confidenciou-me que mesmo que eu ainda tenha medo de dizer que o amo, ele sente-se amado. E para mim, basta, uma vez que as palavras valem o que valem e as ações são o que estabelecem verdadeiramente aquilo que sentimos.

 

WhatsApp Image 2020-10-10 at 13.28.18.jpeg

 

"Deliver us serenity
Deliver us peace
Deliver us loving
We know we need it

(...)

I'm tryna keep my faith
But I'm looking for more
Somewhere I can feel safe
And end my holy war
I'm tryna keep my faith"

 

Ps. Adoptei um cão chamado Simba Lino e vou escrever sobre ele ainda esta semana. Até porque tem sido outra fonte absurda de amor, embora tenha entrado na minha vida há poucos dias.


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